Alguns anos não terminam.
Eles ecoam

2025 não foi um ano. Foi um traço longo, desenhado no ar.

Parti do Rio — esse lugar onde o corpo aprende a respirar entre montanha e mar — e cada viagem abriu uma dobra no tempo.

O calendário tentou contar dias, mas eu medi o ano em paisagens, encontros e gestos. Houve momentos em que o chão era familiar, o idioma conhecido, o cheiro do café anunciava casa. E houve dias em que tudo era estrangeiro — a língua, a luz, o ritmo do caminhar. Ainda assim, em cada território, o ateliê se armava invisível, como estado de presença.

2025 não foi um ano. Foi um traço longo, desenhado no ar.

Cruzei cidades como quem atravessa perguntas. Brasília, São Paulo, Curitiba, Petrolina… não como destinos, mas como capítulos vivos de uma mesma pesquisa: o que pode a infância quando é levada a sério? o que pode o educador quando volta a sonhar?

Houve o Norte e o Sul, a aridez e o excesso, o barro seco da Caatinga e o verde que insiste em nascer entre frestas. Houve o espanto, na creche do Centro no Maranhão, diante do que é simples e o reconhecimento de que beleza não mora no espetáculo, mas na coerência entre gesto e intenção.

Ali, o Brasil se alarga. A escuta se aprofunda. E a infância — mais uma vez — lembra que pertencimento não se ensina: se vive.

O ano atravessou oceanos.

Na América Latina, a infância falou alto, com o corpo inteiro. Na Europa, o tempo ensinou a pausa. Nos Estados Unidos, o contraste ampliou o olhar. Em cada lugar, algo se deslocou — por fora e por dentro.

Foram quase cento e oitenta mil quilômetros. Mas a maior distância percorrida foi a que separa o fazer automático do fazer com sentido.

2025 me ensinou que viajar não é acumular lugares, é refinar perguntas. Que formar não é levar respostas, é criar condições para que outros também desejem procurar.

Que o ateliê não cabe numa sala — ele acontece quando alguém escolhe escutar.

Volto ao ponto de partida diferente

Com menos pressa. Com mais camadas. Com a certeza de que o caminho não se encerra, apenas se adensa.

Fecho o ano como quem fecha um caderno cheio de anotações à margem, sabendo que o essencial não está escrito, mas vive no que foi compartilhado.

Que venha o próximo ano.

Com mais presença do que promessa. Mais processo do que forma. Mais verdade do que ruído. Porque seguir em movimento, quando se sabe por que se caminha, também é uma forma de chegar.