Parti do Rio — esse lugar onde o corpo aprende a respirar entre montanha e mar — e cada viagem abriu uma dobra no tempo.
O calendário tentou contar dias, mas eu medi o ano em paisagens, encontros e gestos. Houve momentos em que o chão era familiar, o idioma conhecido, o cheiro do café anunciava casa. E houve dias em que tudo era estrangeiro — a língua, a luz, o ritmo do caminhar. Ainda assim, em cada território, o ateliê se armava invisível, como estado de presença.
Cruzei cidades como quem atravessa perguntas. Brasília, São Paulo, Curitiba, Petrolina… não como destinos, mas como capítulos vivos de uma mesma pesquisa: o que pode a infância quando é levada a sério? o que pode o educador quando volta a sonhar?
Houve o Norte e o Sul, a aridez e o excesso, o barro seco da Caatinga e o verde que insiste em nascer entre frestas. Houve o espanto, na creche do Centro no Maranhão, diante do que é simples e o reconhecimento de que beleza não mora no espetáculo, mas na coerência entre gesto e intenção.
Ali, o Brasil se alarga. A escuta se aprofunda. E a infância — mais uma vez — lembra que pertencimento não se ensina: se vive.
Na América Latina, a infância falou alto, com o corpo inteiro. Na Europa, o tempo ensinou a pausa. Nos Estados Unidos, o contraste ampliou o olhar. Em cada lugar, algo se deslocou — por fora e por dentro.
Foram quase cento e oitenta mil quilômetros. Mas a maior distância percorrida foi a que separa o fazer automático do fazer com sentido.
2025 me ensinou que viajar não é acumular lugares, é refinar perguntas.
Que formar não é levar respostas, é criar condições para que outros também desejem procurar.
Que o ateliê não cabe numa sala — ele acontece quando alguém escolhe escutar.
Com menos pressa. Com mais camadas. Com a certeza de que o caminho não se encerra, apenas se adensa.
Fecho o ano como quem fecha um caderno cheio de anotações à margem, sabendo que o essencial não está escrito, mas vive no que foi compartilhado.
Que venha o próximo ano.
Com mais presença do que promessa. Mais processo do que forma. Mais verdade do que ruído. Porque seguir em movimento, quando se sabe por que se caminha, também é uma forma de chegar.