É possível falar em pesquisa e investigação na Educação Infantil?
A pergunta ainda ecoa em muitas escolas — mesmo quando, nos discursos, afirmamos uma concepção de infância como sujeito forte, criativo e competente. Entre o que dizemos e o que fazemos, existe um descompasso silencioso. Ele não nasce da falta de estudo, mas de concepções profundamente enraizadas em nossas próprias experiências como alunos e professores.
Carregamos, muitas vezes sem perceber, a ideia de que aprender é um ato prioritariamente conceitual, abstrato, organizado no papel. E por isso nos custa tanto reconhecer que as aprendizagens verdadeiras são aquelas que deixam marcas no corpo, na vida, na memória sensível. Talvez seja esse o motivo pelo qual, mesmo após formações, leituras e cursos, ainda seja tão difícil sustentar um cotidiano pautado na cultura do ateliê.
Quando falamos em cultura do ateliê, não estamos falando de um espaço bonito, nem de uma lista de materiais bem escolhidos. Estamos falando de uma outra forma de se relacionar com o conhecimento.
Uma mudança de eixo: do ensinar para o investigar junto, do controlar para o escutar, do prever tudo para sustentar o que emerge.
Começa quando o olhar demora.
Quando a mão repete um gesto.
Quando o som é testado outra vez.
Quando o material responde — e a criança responde de volta.
Na primeira infância, pesquisar não é preencher fichas.
É formular hipóteses com o corpo inteiro.
É comparar texturas, ritmos, pesos, distâncias.
É insistir. É variar. É observar efeitos.
Pesquisa, na infância, é relação viva entre curiosidade e mundo.
É linguagem em construção.
É pensamento que ainda não se escreve, mas já se organiza em gestos, escolhas e
intenções.
As múltiplas linguagens não são adereços pedagógicos. São estratégias comunicativas
que tornam visíveis ideias, pensamentos e teorias provisórias das crianças. Nesse sentido,
a arte não entra como enfeite ou atividade final. Ela entra como convite ao
estranhamento: olhar o comum por outras frestas, experimentar o que ainda não se sabe,
sustentar perguntas sem resposta imediata.
A arte abre brechas de escuta.
Mas ela só ganha potência quando caminha lado a lado com a pedagogia — e com seus
saberes. Uma pedagogia participativa, que aposta nas relações, nos encontros, na beleza
do diverso como fundamento para construir um espaço de bem viver para todos.
Diferente de uma pedagogia transmissiva e conteudista, a pedagogia participativa convida a
pensar sobre o pensar.
Convida a pesquisar, a investigar, a sustentar teorias provisórias.
Reconhece o ateliê difuso — para além de um espaço físico — como um verdadeiro
estado de presença.
O desafio é que o conceito de pesquisa que muitos adultos carregam é conceitual, não
experiencial. Foi aprendido fora do corpo, separado da vida. Por isso, quando tentamos
promover investigações com bebês e crianças pequenas, algo se quebra. Organizamos
ambientes, compramos materiais não estruturados, investimos em mobiliários — mas, no
momento do acontecimento, o olhar adulto não reconhece o extraordinário que se anuncia.
Quando isso acontece, instala-se um vazio. O educador sente que “não aconteceu nada”. Não sabe como seguir, como aprofundar, como relançar o contexto. E a experiência, que poderia se tornar pesquisa, se esvazia de sentido.
É importante dizer com clareza:
não seguir um método fechado não significa abrir mão
de uma metodologia. A fragilidade vivida por muitos educadores está justamente na
ausência de uma metodologia de pesquisa que entrelace as linguagens artísticas com o
letramento científico. E é aqui que a documentação pedagógica se revela como uma das
ferramentas mais potentes dessa prática — não como registro burocrático, mas como gesto
de escuta, interpretação e pensamento pedagógico.
Talvez, no fundo, a pergunta não seja se bebês e crianças pequenas pesquisam.
Talvez a pergunta seja outra:
Estamos preparados para reconhecer?
Reconhecer que pesquisa pode ser gesto.
Que teoria pode ser brincadeira séria.
Que conhecimento também nasce do chão, do som, da repetição, da curiosidade insistente
e esse texto te atravessou e fez ecoar novas perguntas,
talvez seja um convite.
No dia 26 de fevereiro, abrimos um encontro on-line para aprofundar esse olhar:
Bebês em Ateliê — contextos, materiais e pesquisas.
Um tempo para experimentar, escutar, documentar
e compreender, na prática, como a investigação acontece na primeiríssima infância
quando o corpo, as linguagens e o pensamento caminham juntos.
Saiba mais.
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Quem sente o chamado, chega.