Carnaval, cultura e pedagogias participativas

O carnaval é acontecimento cultural.

Há um equívoco recorrente que ainda habita muitas escolas:

Confundir cultura popular com atividade pontual.
Confundir festa com entretenimento.
Confundir currículo vivo com datas comemorativas.

O carnaval é acontecimento cultural.

Não, um currículo comprometido com a cultura do ateliê não se constrói por calendários festivos.
Mas também não se constrói ignorando as manifestações que atravessam a vida, o corpo, o território e a memória coletiva.

O carnaval não é uma “atividade”.
O carnaval é acontecimento cultural.

Ele é corpo em movimento, ritmo, cor, improviso, narrativa coletiva, ocupação da cidade, invenção de identidades. É o povo dizendo quem é — mesmo quando não encontra palavras.

Nas pedagogias participativas, especialmente na filosofia inaugurada por Loris Malaguzzi em Reggio Emilia, apostar nas festas populares nunca foi folclore.
Foi ato político e pedagógico.
Uma escolha consciente de reconhecer a cultura como território legítimo de pesquisa, pertencimento e construção de sentido.

Carnaval, visto desde esse lugar, não se “trabalha”.

Se investiga.

Investiga-se:

– como os materiais se transformam em linguagem
– como o corpo cria gestos e símbolos
– como a música organiza coletivos
– como a cidade vira cenário e ateliê
– como a infância lê o mundo a partir do que vibra ao redor

Carnaval na escola

Quando uma escola escolhe pesquisar o carnaval, ela não está entretendo crianças.
Está dizendo: a vida que pulsa lá fora também nos forma aqui dentro.
O carnaval não entra na escola como tema.
Entra como campo de pesquisa cultural, onde arte, história, estética, ética e política se entrelaçam.

E talvez a pergunta mais importante não seja “é certo ou errado falar de carnaval na escola?” mas sim:

Como estamos ensinando crianças a ler, compreender e participar dos acontecimentos da vida?

Porque educar, no fundo, é isso:
não proteger a infância do mundo, mas ajudá-la a habitar o mundo com mais consciência, beleza e sentido.

E o carnaval — quando vivido como pesquisa —
é um potente começo.