Coletar é acolher: quando o mundo cabe nas mãos

Coletar é, antes de tudo, um gesto de encontro.

Há algo de profundamente humano no gesto de recolher pequenos fragmentos do mundo. Uma concha na areia. Uma pedra no caminho. Uma figurinha repetida que, ainda assim, não perde seu valor.

Desde os tempos mais antigos, quando nossos ancestrais habitavam a terra como caçadores-coletores, o ato de reunir elementos não era apenas sobrevivência — era também leitura do mundo. Escolher, classificar, guardar, comparar: gestos que atravessam a história e permanecem inscritos no corpo humano como memória ancestral. Coletar era conhecer. E, talvez, ainda seja.

Coletar é, antes de tudo, um gesto de encontro.

Na perspectiva filosófica, antropológica e cultural, colecionar revela algo essencial sobre o ser: nossa necessidade de atribuir sentido à experiência. Não acumulamos apenas objetos — acumulamos histórias, relações, possibilidades de interpretação. Cada coleção é uma narrativa silenciosa sobre quem somos e como nos relacionamos com o mundo.

O filósofo Walter Benjamin nos convida a olhar para as coleções com delicadeza. Para ele, o colecionador não é aquele que apenas possui, mas aquele que cria constelações de sentido. Nas coleções infantis, Benjamin reconhece algo ainda mais potente: a criança não coleciona por valor de mercado, mas por valor de experiência. Ela recolhe o mundo para compreendê-lo.

E é aqui que o gesto de colecionar se aproxima da ciência, da arte e da fenomenologia.

Quando uma criança organiza suas pequenas coleções — tampinhas, folhas, pedras, figurinhas — ela está, na verdade, investigando. Há ali uma pesquisa minuciosa que aciona conceitos fundamentais: classificação, seriação, ordenação, relações de equivalência, conservação. Mas não apenas isso. Há também hipóteses, comparações, narrativas, linguagem.

Colecionar é um modo de pensar.

É por isso que, no campo do letramento científico e fenomenológico, o ato de colecionar se revela como um potente disparador de investigação. Ao reunir elementos, a criança começa a reconhecer padrões, levantar teorias, testar ideias. Ela se torna pesquisadora do mundo — não porque alguém ensinou, mas porque o próprio mundo a convocou.

E talvez seja justamente aí que precisamos reaprender a escutar.

Porque, enquanto a vida pulsa em investigações cotidianas, a escola, muitas vezes, insiste em separar aprendizagem e existência. Em transformar o conhecimento em algo distante, abstrato, desconectado da experiência viva.

Mas o mundo ensina.

E foi isso que, de forma quase intuitiva, se revelou para mim em 1998.

Naquele tempo, ao conversar com crianças de 5 e 6 anos sobre matemática, me surpreendi com suas respostas. Para elas, a matemática morava nas contas da escola ou nas calculadoras. Algumas acreditavam que a aprendiam em casa, com a família — mas não a reconheciam na escola de educação infantil.

Era como se a matemática estivesse fora da vida. Ou a vida fora da matemática.

Essa inquietação me atravessou.

Comecei, então, a tornar visível aquilo que já existia: os números nos prédios, nos apartamentos, nos telefones, nos tamanhos de roupas, nas direções, no dinheiro, nas escolhas cotidianas. A matemática como linguagem viva, como forma de comunicação com o mundo — como nos lembra Paula Castro em sua obra Matemática e Vida.

Mas foi um acontecimento inesperado que transformou tudo em algo memorável.

O lançamento do álbum da Copa do Mundo.

Lembro da banca de jornal, do gesto de comprar figurinhas para minhas filhas pequenas, das memórias afetivas que esse objeto carregava. Esperar meu pai chegar com os pacotinhos, colar juntos, compartilhar o tempo.

E então uma pergunta me atravessou:

E se esse álbum entrasse na escola?

Comprei um álbum para cada grupo. Um álbum coletivo.

Mas não era sobre preencher espaços. Era sobre construir sentido.

Criamos juntos as regras dessa coleção: combinados que envolviam conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais. Negociamos trocas, organizamos estratégias, discutimos repetições, criamos sistemas de registro. As figurinhas se tornaram linguagem.

E, de repente, algo extraordinário aconteceu.

Um simples álbum conectou crianças, professores, famílias. Mobilizou conversas, afetos, aprendizagens. Tornou visível a matemática, a linguagem, a cultura, o pertencimento. O que estava em jogo não era o objeto — era o percurso.

Anos depois, ao reencontrar uma daquelas crianças já adulta, ouvi algo que permaneceu em mim como eco: aquela experiência havia transformado sua vida. E então compreendi, com mais clareza, aquilo que já intuía: eu já habitava a cultura do ateliê, mesmo sem nomeá-la. Porque o ateliê não é um lugar. É um estado de presença. É quando permitimos que a vida entre na escola. E que a escola se torne território de investigação, de cultura, de encontro.

Hoje, ao ouvir novamente sobre o lançamento de um álbum da Copa — desta vez anunciado pela Panini — e ao escutar minha filha, agora adulta, dizer “vamos colecionar?”, percebo que algumas experiências não se encerram no tempo.

Elas permanecem como fios invisíveis que nos conectam ao que somos.

Colecionar, afinal, é também isso:
um gesto de memória.
Um gesto de afeto.
Um gesto de pesquisa.

E talvez o convite que fica para nós, educadores, seja simples — e ao mesmo tempo profundo:

O que as crianças estão colecionando hoje?
E o que isso revela sobre suas perguntas ao mundo?
Porque, se soubermos escutar, cada coleção pode ser o início de um percurso.

E cada percurso, uma forma de aprender a habitar a vida com mais sentido.

Se esse relato tocou você, talvez seja porque, em algum lugar, também exista uma coleção esperando para ser reconhecida. Quer saber mais sobre o projeto Álbum de figurinhas? Acompanhe nossa página no insta @conversasevivencias