Janeiro chega como quem abre a janela devagar.
Traz perguntas que pedem tempo, corpo inteiro e disposição para permanecer.
Vivemos um tempo em que o estado de direito se mostra ameaçado como há muito não se via. Em diferentes partes do mundo, discursos autoritários ganham força, a complexidade é reduzida a slogans e o diálogo é confundido com fraqueza. Nesse cenário, educar não é neutro. Nunca foi.
Educar é, hoje mais do que nunca, um gesto político no sentido mais profundo da palavra: aquele que diz respeito à vida em comum.
Falar de educação participativa e democrática não é falar de método.
É falar de uma ética do encontro.
É assumir que ninguém educa sozinho, que o mundo não cabe em uma única narrativa e
que a escola — quando fiel à sua vocação — é um dos poucos lugares onde ainda se pode
aprender a conviver com a diferença sem anulá-la.
Mas é preciso dizer: escutar não é concordar.
Escutar não é ceder à vontade do outro.
Escutar é um ato ativo, exigente, por vezes desconfortável.
Escutamos para ampliar a visão de mundo, para descobrir que existem outras formas de
ser, de viver, de organizar a vida — e que a nossa não é a única possível.
A escuta inaugura deslocamentos.
E todo deslocamento verdadeiro exige tempo.
Vivemos, no entanto, sob a ilusão constante da falta de tempo. Dizemos que não há tempo
para escutar, para dialogar, para sustentar processos longos. Mas talvez seja preciso
nomear com honestidade: tempo não é ausência, é prioridade. Sempre foi. Aquilo a que
dedicamos tempo revela, sem discursos, aquilo em que acreditamos.
Essa reflexão me atravessou recentemente ao revisitar o álbum LUX, da Rosalía. Aclamado
pela crítica como inovador, não apenas pelo som, mas pela experiência que propõe, o
álbum exige algo raro de nós: movimento e relação. Não é música para consumo passivo.
Ela pede escuta ativa, pede corpo, pede atravessamento. É preciso se deixar afetar,
estranhar, voltar, ouvir de novo.
Talvez por isso incomode e encante ao mesmo tempo.
Porque rompe com a lógica da facilidade.
Porque nos convoca a participar da experiência, e não apenas assisti-la.
Há uma ponte potente entre essa experiência estética e o que a educação democrática nos
pede hoje. Uma educação que forma para a participação não oferece caminhos prontos. Ela
cria condições para que cada sujeito se reconheça como parte de algo maior, capaz de
escutar, argumentar, sustentar diferenças e construir sentidos coletivos.
Isso não se faz com pressa.
Não se faz com respostas rápidas.
Não se faz sem conflito.
Educar para a democracia é educar para o tempo longo, para a convivência com o
inacabado, para a negociação de sentidos. É compreender que o pensamento se constrói
na relação, assim como a música que só existe plenamente quando alguém se dispõe a
escutá-la de verdade.
Janeiro, então, não é apenas o início de um ano.
É um convite ético.
Talvez seja tempo de perguntar, com mais honestidade do que nunca:
a que — e a quem — temos dedicado nosso tempo?
Porque é nessa resposta silenciosa que se desenha o mundo que ajudamos a construir
todos os dias, dentro e fora da escola.