Na última semana estive no Ceará.
Fui ao encontro de educadores, artistas e artesãos para dialogar sobre aquilo que, há
muitos anos, venho chamando de cultura do ateliê no chão da escola brasileira.
A viagem também tinha outro propósito: realizar a curadoria artística e pedagógica da
segunda edição do Congresso CRIAR Nordeste, que este ano será dedicado a um tema
que pulsa no coração da infância e da arte: as 100 linguagens do ateliê.
Entre encontros com escultores de madeira, artesãos da palha, artistas que trabalham com areia e barro, pintores, gravuristas, comediantes, músicos e dançarinos — muitos encontros atravessaram o corpo e a memória.
Mas confesso:
foram as rendeiras que arrebataram meu coração.
Não apenas pelas tramas delicadas que se entrelaçam em fios quase invisíveis, mas pelas
histórias que sustentam cada gesto.
Histórias que lembram que a arte, antes de ser objeto, é forma de existir e resistir.
Foi no Centro das Rendeiras Luiza Távora, em Fortaleza, que conheci Dona Ilda.
Ela me recebeu com um sorriso largo e uma alegria que parecia antiga — dessas que
carregam o tempo dentro de si.
Enquanto suas mãos habilidosas conduziam os bilros sobre a almofada do tear, ela
contava, com reverência, sobre o ofício da renda.
Aprendeu aos sete anos.
Aprendeu com sua mãe.
Que aprendeu com sua avó.
Uma menina era apresentada à renda como quem atravessa um portal.
Não era apenas uma técnica.
Era um rito de passagem, carregado de afeto e pertencimento.
Enquanto narrava sua história, Dona Ilda se emocionou.
Mostrou-me uma fotografia antiga da mãe — guardada ao seu lado como quem guarda uma
bússola.
Uma lembrança viva daquilo que permanece mesmo quando o tempo passa.
Mas sua história guardava ainda outra curva.
Ainda menina, ela deixou o Ceará para trabalhar em São Paulo.
Ali permaneceu por mais de vinte anos.
Depois seguiu para o Rio de Janeiro.
Aprendeu outros ofícios, viveu a pressa das grandes cidades, atravessou décadas de vida
até que, depois de mais de trinta anos, decidiu retornar à sua terra natal.
Quando chegou ao Ceará, entrou na casa da mãe.
O tear da renda estava ali.
Quieto.
Esperando.
Ela sentou.
E então, com um misto de espanto e ternura, me disse:
— E não é que minhas mãos sabiam o caminho?
Naquele instante lembrei-me das longas conversas que tive durante a pandemia com a
querida Lydia Hortélio.
Em um de nossos encontros, Lydia me disse algo que nunca esqueci:
Foi na roça, no chão do interior da Bahia, que encontrou as pessoas mais sábias — muitas
vezes mais sábias do que aquelas que ocupam os mais altos patamares da universidade.
Ao ouvir Dona Ilda dizer que suas mãos sabiam o caminho, percebi que ela traduzia com
simplicidade algo que muitos estudos ainda tentam explicar.
Toda aprendizagem passa pelo corpo.
Não é apenas a mente que aprende.
É o gesto.
É a pele.
É o ritmo do fazer.
O filósofo Jorge Larrosa nos lembra que experiência é aquilo que nos acontece e nos
atravessa.
O saber da renda vive justamente nesse lugar.
Ele não está apenas nas palavras.
Está no movimento repetido, na escuta do tempo, na paciência dos fios.
Hoje, porém, muitas meninas já não aprendem mais essa arte.
A renda vem perdendo prestígio diante de uma cultura que valoriza a velocidade, o descarte
e a produção em série.
Mas quem já viu uma renda nascer sabe:
ali existe um outro tempo.
Um tempo que resiste.
Recentemente li, na revista Urdume, uma reflexão que me acompanhou durante toda a
viagem:
O feito à mão pode ser uma das grandes revoluções estéticas do nosso tempo.
Talvez porque, como nos lembra o filósofo Byung-Chul Han, vivemos mergulhados em uma
sociedade do cansaço.
Uma sociedade que alisa as superfícies, acelera os processos e elimina as rugosidades da
experiência.
Talvez por isso as artesanias carreguem uma potência tão grande. .
Elas nos lembram que criar não é apenas produzir algo novo.
Criar é tecer relações.
Relações com a terra, com o território, com os saberes que vieram antes de nós. .
Essa é, também, uma das premissas da cultura do ateliê.
O ateliê não existe apenas para ensinar técnicas.
Ele existe para provocar ecos culturais, ampliar as lentes com as quais adultos e crianças
olham o mundo.
É mais do que urgente que a escola reconheça e reverencie essas histórias.
Reconheça o chão onde pisa.
A arte que nasce nos territórios.
A ancestralidade que sustenta nossas mãos.
As crianças, é verdade, atualizam a cultura.
Inventam novas narrativas.
Mas para que isso aconteça é preciso que exista um adulto ao lado delas — alguém que
sustente a experiência, que ofereça referências, que cuide da memória.
Garantir o direito à beleza talvez seja uma das formas mais profundas de resistência
pedagógica.
Porque quando a beleza entra na escola, algo muda.
Ela abre fissuras nos discursos dominantes.
Nos convida a imaginar outros futuros.
A recontar nossas histórias.
Talvez seja isso que o ateliê nos ensine.
Que educar também é tecer mundos possíveis.
E que, às vezes, para reencontrar o caminho, basta confiar naquilo que as mãos já sabem.
Em maio de 2026, educadores de diferentes partes do Brasil e da América Latina se
encontrarão novamente para pensar, sentir e viver essas perguntas no Congresso
Internacional CRIAR Nordeste.
Um encontro que nasce do desejo de aproximar arte e pedagogia, cultura e escola, tradição
e futuro.
Quem sabe, entre tantas conversas e vivências, possamos descobrir juntos quantos
caminhos ainda existem escondidos nas mãos.
E quantas linguagens ainda esperam para florescer no chão da escola brasileira.