Em tempos de inteligência artificial, pressa e conteúdos express, abrir um livro pode ser um dos mais belos atos de resistência e existência.
Você já percebeu o quanto a literatura tem ganhado espaço em campanhas publicitárias, clubes de leitura e nos mais diferentes nichos da cultura contemporânea?
Já se perguntou por quê?
Eu mesma participo de vários clubes de leitura. E tenho observado com curiosidade esse movimento: em um tempo marcado pela velocidade, pela inteligência artificial, por conteúdos cada vez mais breves e por uma sucessão infinita de imagens que desaparecem diante de nossos olhos com o simples movimento de um dedo, parece haver, ao mesmo tempo, uma espécie de desejo coletivo de voltar aos livros.
Talvez porque a literatura, como arte, nos devolva algo que corremos o risco de perder: nossa capacidade de imaginar, sonhar e habitar outros mundos.
É preciso parar. Permanecer. Escutar. Aceitar não saber imediatamente aonde uma narrativa nos levará.
É preciso permitir-se perder entre páginas.
E talvez, justamente por isso, ler tenha se tornado um ato de resistência. Mas também um ato de existência.
Enquanto tudo ao nosso redor parece nos convocar à rapidez, à produtividade e às respostas instantâneas, um livro nos pede outra coisa: presença.
Ele nos convida a entrar na vida de alguém que nunca conhecemos, caminhar por lugares onde talvez nunca tenhamos estado, sentir dores que não são nossas e, ainda assim, reconhecê-las. A literatura amplia nossa capacidade imagética, mas amplia também nossa possibilidade de alteridade. Por algumas páginas, podemos habitar outros corpos, outros tempos, outras geografias, outras formas de existir.
E talvez seja por isso que os livros sejam tão necessários para permanecermos humanos.
Nas conversas e vivências pelas escolas que caminho, costumo dizer que, se precisasse escolher os materiais verdadeiramente imprescindíveis em um espaço educativo, escolheria dois: os materiais não estruturados e os livros.
Porque ambos guardam uma potência semelhante: não dizem à criança exatamente o que fazer.
Um pedaço de madeira pode se tornar ponte, casa, barco ou aquilo que ainda não tem nome. Um livro pode abrir uma fresta para uma pergunta, uma investigação, uma imagem, um território inteiro de pesquisa.
Os livros não deveriam habitar as escolas apenas nos momentos destinados à leitura. Eles podem estar sobre as mesas de investigação, próximos à argila, entre as coleções naturais, ao lado dos desenhos e das perguntas das crianças. Podem inspirar projetos e pesquisas, atravessar experiências e provocar encontros entre ciência, poesia, arte, filosofia, história e território.
Um dos trabalhos mais incríveis que tive a oportunidade de orientar como gestora pedagógica nasceu do encontro com a poesia de Manoel de Barros e seu quintal maior do que o mundo.
Sua poesia, seus pés descalços no chão do Pantanal, sua atenção às coisas consideradas pequenas e aparentemente desimportantes inspiraram crianças e adultos a se reconectarem com o próprio território. A olhar novamente para o chão. Para os restos. Para os insetos. Para aquilo que cresce nas frestas.
A literatura não serviu como tema para uma atividade.
Ela se tornou uma lente para olhar o mundo.
E essa diferença é imensa.
Por que estamos voltando aos livros?
Há algo curioso acontecendo ao nosso redor. Artistas pop não apenas declaram a literatura como um de seus principais interesses, como também criam clubes de leitura e iniciativas de incentivo aos livros. A cantora Dua Lipa, por exemplo, transformou sua relação com a literatura em um projeto cultural que atravessa fronteiras e aproxima leitores de diferentes autores e geografias.
E, entre essas leituras, encontramos também a presença da literatura brasileira de Conceição Evaristo, com Olhos d'Água — uma das minhas leituras preferidas.
Observamos movimentos semelhantes no universo da moda, da arte e do design. Grandes obras literárias atravessam coleções, vitrines e criações contemporâneas.
Talvez não seja coincidência.
Quanto mais o mundo se torna veloz, mais parece crescer nosso desejo por profundidade.
Quanto mais somos cercados por respostas instantâneas, mais necessitamos de boas perguntas.
Quanto mais as máquinas aprendem a produzir textos, imagens e narrativas, mais precisamos nos perguntar: o que nos ajuda a permanecer profundamente humanos?
Para mim, a literatura é uma dessas respostas.
Os livros que moram na minha cabeceira
Como amante dessa prática, tenho sempre três livros ao lado da cama. Geralmente, um relacionado ao meu trabalho e outros dois escolhidos simplesmente pelo prazer de ler.
Nunca leio apenas um livro por vez.
Vou de um para outro conforme o dia, o cansaço, o desejo, a pergunta que me acompanha.
E, quando me apego muito aos personagens, às vezes começo a ler mais devagar perto do fim. Como se diminuir o ritmo pudesse adiar a despedida.
Há personagens que continuam conosco mesmo depois que fechamos o livro. Eles aparecem enquanto fazemos café, caminhamos pela rua ou olhamos pela janela. Durante dias ou semanas, seguimos pensando: o que terá acontecido depois?
Foi assim comigo recentemente, ao terminar Os Nomes. Fechei o livro, mas a história não terminou em mim.
Talvez essa seja uma das coisas mais extraordinárias da literatura: um livro pode acabar na última página e continuar sendo escrito dentro de nós.
Em uma vida tão acelerada, atravessada por rotinas exaustivas e tantos estímulos, esses momentos tornam-se bálsamos. Pequenos territórios de silêncio. Lugares onde podemos nos retirar do ruído sem abandonar o mundo — e, talvez, retornar a ele com um pouco mais de sensibilidade.
Agora, quando as escolas começam a entrar em férias e o cotidiano ganha, ainda que por alguns dias, outro ritmo, gostaria de fazer um convite.
Não um convite para ler mais.
Não mais uma meta.
Não outro item em uma lista de coisas que precisam ser feitas.
Mas um convite para encontrar um livro que faça o tempo desaparecer.
Uma história na qual seja possível entrar sem pressa. Um personagem do qual seja difícil se despedir. Uma poesia que nos faça levantar os olhos da página e olhar novamente para o mundo.
Que este tempo suspenso da escola permita viajar, sonhar e projetar mundos possíveis através de boas leituras.
Que estas férias sejam um convite à escuta de si e do mundo.
Que os livros nos relembrem o valor do encontro, da lentidão, da imaginação e daquilo que não precisa ser imediatamente útil para ser profundamente necessário.
Porque talvez, em tempos de inteligência artificial, algoritmos e conteúdos express, sentar-se diante de um livro e permanecer ali seja uma forma silenciosa de dizer:
Ainda queremos tempo para imaginar.
Ainda queremos nos comover.
Ainda queremos sonhar mundos que não existem.
Ainda queremos permanecer humanos.
Deixo no @conversasevivencias alguns livros que separei no meu carrinho para ler nas férias — e outros aos quais sempre retorno quando preciso me lembrar de que, apesar de tudo, a vida ainda vale a pena ser lida, imaginada e vivida. Passa por lá para espiar.
Agora me conta:
Qual livro terminou na última página, mas continuou sendo escrito dentro de você?