Não existem contextos para crianças imaginárias

Você já passou horas preparando um espaço para as crianças?

Sobre territórios, documentação e a delicada arte de projetar sem antecipar o pensamento das crianças.

Você já passou horas preparando um espaço para as crianças?

Você já passou horas preparando um espaço para as crianças? Escolheu materiais cuidadosamente. Organizou cada objeto. Pensou nas cores, na luz, na disposição dos elementos. Olhou para aquela composição e imaginou tudo o que poderia acontecer quando as crianças chegassem.

E então elas chegaram.

E nada daquilo que você imaginou aconteceu

Algumas passaram rapidamente pelos materiais. Outras inventaram usos completamente diferentes daqueles que você havia previsto. Talvez tenham se interessado justamente por aquilo que parecia menos importante. Ou simplesmente não tenham se engajado. 

E fica uma sensação difícil para o educador: “Talvez essa prática não seja para mim.” 

Mas talvez o problema não esteja nos materiais. Talvez esteja no lugar de onde começamos a pensar. 

Há muitas imagens de escolas bonitas circulando pelas redes. Vemos ateliês cuidadosamente organizados, materiais naturais, transparências, mesas de luz, coleções, argila, tintas, objetos dispostos com uma estética quase impecável. 

O que nem sempre aparece é o pensamento pedagógico que antecede essas escolhas. Porque uma cultura do ateliê não começa nos materiais.

O ateliê começa no olhar. 

E talvez o primeiro deslocamento seja compreender que o ateliê não é uma sala. É uma forma de se relacionar com o conhecimento. 

Por isso, mais importante do que perguntar onde montar um ateliê na escola é começar a imaginar: 

E se a própria escola pudesse ser vivida como um grande ateliê?

Quando a escola inteira se torna território

Quando mudamos essa lente, o corredor deixa de ser apenas passagem. A janela deixa de ser apenas abertura. 

Uma escada pode nos fazer perceber movimentos, alturas, perspectivas e incidências de luz. 

Os quintais, pátios, cozinhas, jardins, varandas e salas referência revelam-se como espaços potenciais de investigação. 

Mas reconhecer essa potência não significa simplesmente espalhar materiais pela escola. Antes de organizar qualquer território, precisamos perguntar: 

Que imagem de criança sustenta nossas escolhas? 

Nenhum espaço educativo é neutro. 

A altura de uma prateleira, a possibilidade de deslocar um móvel, o acesso aos materiais, os lugares destinados aos encontros e até aquilo que decidimos não oferecer revelam o que pensamos sobre as crianças. 

Uma cultura do ateliê parte de uma imagem de criança competente, curiosa, relacional, produtora de cultura, capaz de construir teorias e atribuir significados àquilo que encontra. 

Uma criança que não apenas está no mundo. 

Uma criança que age sobre o mundo. 

É nesse sentido que gosto de pensar o protagonismo infantil. 

Protagonismo não significa deixar a criança fazer tudo o que quiser. Tampouco significa escolher entre possibilidades já determinadas pelo adulto. 

Ser protagonista significa tomar parte na construção da experiência

A criança toca, desloca, combina, desmonta, pergunta, contradiz, negocia, inventa. Ela deixa marcas. 

Transforma o ambiente e também é transformada pelas relações que estabelece nele. Se acreditamos nessa criança, nossos espaços precisam materializar essa crença.

Território é relação

O pensamento de Humberto Maturana nos ajuda a ampliar essa compreensão ao colocar as relações no centro do viver e do conhecer. 

Isso nos permite afastar a ideia de território como simples delimitação física. 

Um território não existe apenas porque escolhemos determinado canto da escola e colocamos materiais ali.

O território acontece nas relações. 

Entre crianças. Entre crianças e adultos. Entre corpos e matérias. Entre aquilo que já conhecemos e aquilo que um encontro inesperado nos obriga a reconsiderar. 

A criança transforma o meio e é simultaneamente transformada por ele. 

Por isso, talvez uma pergunta mais potente do que “o que vou colocar neste espaço?” seja: Que relações podem acontecer aqui? 

Essa mudança parece pequena, mas transforma profundamente a planificação.

Um território precisa pertencer 

Existe ainda outra dimensão fundamental. 

Território é também cultura. 

Se compreendemos a estética como construção de pertencimento, nossos espaços precisam carregar alguma coisa das histórias, paisagens, memórias e modos de viver do lugar onde a escola existe. 

Um território de água no Rio de Janeiro não precisa narrar a mesma história que um território de água no sertão. 

Um território de terra na Caatinga não pode ser apenas uma reprodução de uma imagem encontrada em uma escola italiana. 

Porque uma escola pode ser muito bonita e, ainda assim, não contar absolutamente nada sobre quem a habita

Não se trata de reproduzir uma estética. Trata-se de construir uma identidade.

A pergunta não é: “Como fazer minha escola parecer uma escola de Reggio Emilia?” Mas: 

Como os princípios que estudamos podem nos ajudar a construir uma escola que se pareça cada vez mais conosco? 

Pertencimento não nasce da reprodução. 

Pertencimento nasce do reconhecimento.

O educador também é curador

É aqui que a curadoria se torna um gesto pedagógico. 

Curar um território não é decorá-lo. Também não é reunir muitos materiais considerados bonitos, naturais ou sofisticados.

Curadoria significa selecionar, relacionar, retirar, preservar e atribuir sentido

Os materiais e o mobiliário podem carregar vestígios do lugar: matérias presentes na paisagem, objetos cotidianos, saberes artesanais, fibras, madeiras, argilas, pedras, tecidos, técnicas e modos de fazer. 

Uma cesta não precisa estar ali apenas porque é bonita. Quem produz cestos naquela região? Com quais fibras? Para quais usos? Que histórias existem naquele gesto?

Uma peça de barro pode falar da geologia de um território, mas também das mãos que, durante gerações, aprenderam a transformar aquela terra. 

Os objetos tornam-se, assim, pequenos arquivos materiais da cultura. 

E o educador passa a ser não apenas curador de objetos, mas curador de relações possíveis

Quando aproxima dois materiais, propõe uma relação. Quando retira um terceiro, produz um recorte. Quando aproxima uma mesa da janela, coloca matéria e luz em diálogo. Quando escolhe um móvel que pode ser deslocado, comunica confiança na capacidade das crianças de transformar o ambiente. 

Por isso, curadoria também é subtração. 

Nem sempre precisamos perguntar: “O que mais posso colocar?” 

Às vezes, a pergunta mais pedagógica é: 

O que realmente precisa estar aqui? 

Território como morada

Quando um território permanece no cotidiano da escola, algo muito bonito começa a acontecer. 

As crianças passam a conhecê-lo. Sabem onde encontrar os materiais. Reconhecem suas possibilidades. Aprendem a utilizá-los, guardá-los, combiná-los e cuidar deles. 

Começam a construir uma memória daquele lugar. 

Não precisam esperar, a cada encontro, que o adulto explique novamente como estar ali. 

Pouco a pouco, deixam de ser visitantes de um espaço preparado por alguém e tornam-se habitantes daquele território

Gosto de pensar nisso como a construção de uma morada autônoma

Autonomia, aqui, não significa independência ou fazer tudo sozinho. Autonomia se constrói nas relações. 

É poder escolher, agir, negociar, transformar e cuidar dentro de uma vida compartilhada. Por isso, existe um percurso silencioso que o território pode favorecer:

acessar reconhecer escolher agir transformar cuidar pertencer.

E há uma razão importante para que os territórios tenham certa permanência. Permanecer permite retornar. E retornar é pedagogicamente precioso. 

A criança pode reencontrar uma construção, repetir um gesto, modificar uma estratégia, retomar algo iniciado ontem e perceber que aquilo que fez deixou vestígios.

O território começa a dizer: 

Você esteve aqui. 

Sua ação produziu alguma coisa. 

Este lugar também guarda a sua história. 

É assim que espaço pode tornar-se morada.

Cada material possui uma gramática

Para que tudo isso aconteça, os territórios precisam possuir identidade e uma curadoria coerente de materiais. 

Um território de água. Um território de construção. Um território gráfico. Um território de luz e sombra. Um território de terra. 

Eles podem se modificar, receber novos elementos e sofrer rearranjos, mas preservam uma identidade que permite às crianças reconhecê-los. 

E cada material presente nesses territórios produz possibilidades diferentes de ação. 

Transvasar não é empilhar. Modelar não é encaixar. Amarrar não é equilibrar. Projetar uma sombra não é desenhar. 

Quanto mais o educador conhece a gramática dos materiais, mais sofisticada se torna sua capacidade de observar aquilo que as crianças fazem com eles. 

E aqui chegamos a uma distinção fundamental: 

Territórios acolhem e provocam pesquisas. 

Contextos investigativos aprofundam teorias.

Não existem contextos para crianças imaginárias

Um território possui abertura. É nele que encontros acontecem e indícios aparecem. 

Uma criança observa repetidamente o percurso da água. Um grupo tenta construir estruturas cada vez mais altas. Duas crianças investigam o tamanho das sombras. Pedras começam a ser agrupadas segundo critérios que somente aos poucos conseguimos compreender. 

O educador observa. Registra. Retorna às imagens. Escuta novamente uma frase. Percebe repetições. Começa a estabelecer relações.

E então alguma coisa pode revelar-se como pesquisa. 

É a partir daí que nasce um contexto investigativo. 

Por isso, gosto de dizer: 

não existem contextos para crianças imaginárias. 

Existem contextos para estas crianças, neste momento, a partir destes gestos, destas perguntas e destas teorias que estão tentando construir. 

Sem observação e registro, podemos preparar contextos lindíssimos e pedagogicamente frágeis. 

Porque estaremos trabalhando a partir daquilo que imaginamos que as crianças deveriam investigar, e não daquilo que suas ações estão nos contando. 

A documentação é, portanto, a ponte entre território e contexto. 

As crianças pensam enquanto fazem

Há outra ideia essencial para compreender por que precisamos observar tanto. As crianças não pensam primeiro para depois agir. 

Elas pensam e atuam no mundo simultaneamente. 

Pensam com as mãos. Com o corpo. Com as palavras. Com os deslocamentos. Com os silêncios. Com os materiais. Com outras crianças. 

Uma criança empilha uma peça. A estrutura cai. Ela muda a base. Experimenta novamente. Acrescenta outra matéria. Observa. Recomeça. 

Pensamento e ação estão acontecendo juntos. 

O material resiste. A criança responde. O material produz outra condição. A criança modifica sua hipótese. 

É no encontro que o pensamento se constrói.

O encanto também pensa 

Criatividade não aparece porque pedimos às crianças que “sejam criativas”. 

A potência criativa emerge quando construímos uma atmosfera na qual seja possível experimentar sem conhecer antecipadamente o resultado. 

O lúdico abre uma fresta entre o que existe e aquilo que ainda pode existir. Permite experimentar. Errar. Retornar. Inventar relações improváveis. Imaginar. 

Por isso, ao planificar um contexto, não selecionamos apenas materiais. Construímos uma atmosfera investigativa.

Luz, disposição dos objetos, quantidade de materiais, tempos, silêncios, encontros e a própria presença do adulto participam dessa composição. 

O encanto não é ornamento. 

O encanto pode produzir desejo de saber.

O contexto precisa deixar alguma coisa em aberto

Se as crianças pensam enquanto agem, não podemos conhecer antecipadamente os caminhos que seu pensamento percorrerá. 

Um contexto investigativo precisa carregar uma incompletude intencional

Ele é planificado, mas não fechado. Tem intenção, mas não roteiro. Possui perguntas, mas não respostas esperadas. 

É exatamente aí que reside a diferença entre contexto investigativo e atividade. Na atividade, muitas vezes conhecemos o percurso e esperamos determinado resultado. 

No contexto, conhecemos nossa intenção educativa, mas não sabemos exatamente aonde aquele encontro poderá levar. 

Intencionalidade é direção, não destino.

 

O educador constrói andaimes 

A ideia de scaffolding, ou andaime, desenvolvida nos estudos de Jerome Bruner e colaboradores, oferece uma metáfora fértil para compreendermos a presença do educador. 

Um andaime sustenta uma construção enquanto ela necessita de apoio. 

Mas o andaime não é a construção

Ele oferece condições para que algo possa acontecer e pode ser transformado ou retirado quando deixa de ser necessário. 

Talvez seja exatamente essa a posição do educador diante de um contexto investigativo. Nem controlar. Nem desaparecer. 

Sustentar. 

Um novo material pode ser um andaime. Uma fotografia recuperada de uma investigação anterior pode ser um andaime. Reposicionar um objeto pode ser um andaime. Uma pergunta pode ser um andaime. 

Às vezes, até o silêncio do professor é um andaime, porque permite à criança permanecer um pouco mais diante de um problema. 

A questão deixa de ser simplesmente “devo intervir?” e passa a ser:

Que intervenção pode sustentar este pensamento sem pensar pela criança? E há algo fundamental: todo bom andaime precisa poder desaparecer. 

Se continuamos oferecendo ajuda quando ela já não é necessária, aquilo que antes sustentava começa a limitar. 

Por isso, a retirada também é uma decisão pedagógica. 

Às vezes aprofundar uma pesquisa não significa acrescentar. 

Significa retirar. Esperar. Dar tempo.

Perguntas que não procuram respostas

Nesse processo, as perguntas do educador são decisivas. 

Mas nem toda pergunta produz pensamento. 

Algumas apenas verificam aquilo que a criança já sabe. Outras conduzem discretamente para a resposta que o adulto espera. 

As perguntas generativas fazem outra coisa. Elas abrem possibilidades: O que faz você pensar isso? 

Como poderíamos descobrir? 

Existe outro jeito? 

O que mudaria se…? 

Como poderíamos tornar essa ideia visível? 

A pergunta não funciona como teste. Funciona como andaime. 

E algo extraordinário acontece quando permanecemos tempo suficiente em uma cultura investigativa: as perguntas começam a deixar de ser apenas do professor. 

As crianças começam a perguntar: 

“E se…?” “Será que…?” “Como podemos…?” 

É aí que começamos a reconhecer a construção de um pensamento projetual.

Documentar para poder projetar

Talvez possamos visualizar o movimento da prática assim: 

observar registrar interpretar formular perguntas planificar encontrar observar novamente replanificar.

Não é uma sequência que termina. É um movimento circular. 

A documentação alimenta a planificação. A planificação produz novos encontros. Os encontros deixam novos vestígios. Os vestígios produzem novas interpretações. 

E essas interpretações nos permitem construir novos contextos e novos andaimes. É por isso que prefiro falar em planificação

Não estamos escrevendo antecipadamente aquilo que deverá acontecer. Estamos projetando condições para que algo possa acontecer. 

E fazemos isso para crianças reais. 

Não para crianças imaginárias. 

Talvez o ateliê comece exatamente aqui 

Depois de tudo isso, talvez possamos voltar àquela cena do início. 

O professor prepara cuidadosamente um espaço. As crianças chegam. E nada daquilo que ele imaginou acontece. 

Talvez essa cena não revele o fracasso da proposta. 

Talvez revele justamente o início da pesquisa. 

Porque uma cultura do ateliê exige que sejamos capazes de abandonar a pergunta: “Por que as crianças não fizeram aquilo que planejei?” 

para perguntar: 

“O que elas fizeram que eu ainda não consegui compreender?” 

Esse deslocamento muda tudo. 

Muda nossa relação com os materiais. Com os espaços. Com o planejamento. Com a documentação. E, principalmente, muda nossa relação com as crianças. 

A escola deixa de ser um lugar que preparamos para elas e começa a tornar-se um lugar que construímos com elas

Um lugar onde é possível agir. Deixar marcas. Retornar. Transformar. Cuidar. Pertencer. Pesquisar. Imaginar. 

Talvez seja isso viver a escola como um grande ateliê. 

Não uma escola repleta de materiais extraordinários. 

Mas uma escola capaz de olhar para aquilo que acontece todos os dias e reconhecer ali algo extraordinário.

Porque, antes dos materiais, antes dos móveis, antes dos contextos e até mesmo antes do espaço, 

o ateliê começa no olhar.

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