Há momentos em que um acontecimento cultural ultrapassa o campo da celebração e se transforma em chamado coletivo.
O reconhecimento internacional do filme Agente Secreto e o discurso , no Globo de Ouro, do ator premiado, Vagner Moura, são um desses momentos.
Ao falar da importância da memória, o ator não fala apenas de cinema.
Fala de responsabilidade histórica.
© Paulo Pinto/Agência Brasil
Fala da urgência de narrarmos aquilo que fomos — para não nos perdermos naquilo que
ainda podemos ser.
Quando revisitamos as histórias da ditadura, não é para permanecer na dor, mas para
impedir que o esquecimento normalize a violência.
A memória, aqui, não é passado: é fundamento ético do presente.
A filósofa Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, nos alerta para os perigos
do não-pensar, do não-lembrar, do obedecer sem consciência.
O mal se instala quando a história é silenciada, quando deixamos de narrar, quando
abrimos mão da reflexão.
É por isso que cultura e democracia caminham juntas.
E é por isso que a arte ocupa um lugar tão essencial: ela revela, desvela, cria ecos, abre
espaços de escuta na comunidade.
Cena do filme “O Agente Secreto” | Crédito: Divulgação / CinemaScópio
Foto Destaque: Wagner Moura (Reprodução/Instagram/@cineceara)
A arte não nos afasta da realidade.
Ela nos devolve a ela com mais densidade.
No cinema, no teatro, na música, na literatura,
a arte nos ensina a olhar de novo,
a sustentar perguntas incômodas,
a compreender que a história não é única — ela é feita de múltiplas vozes, muitas vezes
silenciadas.
Esse mesmo princípio atravessa a educação pensada por Loris Malaguzzi.
Quando ele concebe o ateliê e o papel do atelierista, parte da certeza de que não se educa
para a democracia fora da cultura do povo.
A escola, para ele, não deveria reproduzir modelos prontos, mas se tornar um espaço de
pesquisa sobre a vida,
sobre a história,
sobre as linguagens que constituem uma comunidade.
Documentação pedagógica: narrar para não esquecer
É nesse ponto que a documentação pedagógica se torna central.
Documentar não é registrar por obrigação.
Não é produzir provas.
Não é decorar paredes.
Documentar é assumir a narrativa como ato político.
Quando a escola documenta os processos das crianças — seus gestos, hipóteses, falas,
silêncios, desenhos, construções — ela afirma:
essas experiências têm valor histórico.
essas vozes importam.
essa comunidade pensa.
A documentação cria um tempo de pausa no cotidiano acelerado.
Um tempo de escuta.
Um tempo de conversa.
Ela nos convida a olhar novamente para o vivido, a interpretá-lo coletivamente, a romper
com paradigmas cristalizados sobre infância, aprendizagem e conhecimento.
Documentar é abrir espaços de conversa
Ao tornar visíveis os processos, a documentação desloca o saber do lugar da autoridade
única
e o distribui no coletivo.
Ela convoca professores, crianças, famílias e comunidade a pensarem juntos:
● O que estamos aprendendo sobre quem somos?
● Que valores aparecem nas escolhas das crianças?
● Que cultura atravessa nossos gestos cotidianos?
● Que histórias estão sendo contadas — e quais ainda precisam ser narradas?
Assim, a documentação se transforma em dispositivo democrático.
Ela não encerra sentidos.
Ela abre diálogos.
Romper paradigmas a partir do território
Inspirada na experiência de Reggio Emilia, a cultura do ateliê não propõe neutralidade.
Propõe posicionamento.
Educar é sempre um ato político.
A questão é se estamos conscientes disso.
Quando documentamos a partir da nossa realidade brasileira — das histórias do nosso
território, das memórias da nossa comunidade,
das marcas deixadas pelo passado — rompemos com a lógica da reprodução e
construímos uma pedagogia enraizada.
A documentação, nesse sentido, é memória viva.
É resistência ao apagamento.
É um modo de dizer às crianças:o que você vive hoje também faz parte da história.
Assim como o cinema nos convoca a olhar para trás para não repetir violências, a escola
precisa assumir seu papel como guardiã das narrativas do cotidiano.
Sem memória, a democracia se fragiliza.
Sem escuta, a escola se esvazia.
Sem arte, a história perde linguagem.
Narrar, documentar, criar —são atos profundamente políticos.
E talvez seja isso que a infância, silenciosamente, nos ensina todos os dias:
que o futuro só pode ser reinventado quando temos coragem de olhar, escutar e narrar o
que fomos e o que somos.
Documentação pedagógica é uma prática de escuta e narrativa do cotidiano escolar.
Ela torna visíveis os processos de aprendizagem das crianças e dos educadores,
valorizando gestos, hipóteses, perguntas, erros e descobertas.
Mais do que um registro, ela é:
● um ato de memória,
● um instrumento de reflexão coletiva,
● um dispositivo democrático,
● uma linguagem política da escola.
Documentar é dizer: aqui há pensamento, cultura e história em construção.
Por isso é cada vez mais urgente pensarmos o papel da escola como espaço democrático e
de encontro.
1. Quais histórias da nossa comunidade foram silenciadas ao longo do tempo?
2. Que memórias atravessam as famílias, os territórios e os corpos que habitam a
escola?
3. Quais manifestações artísticas locais revelam quem somos como povo?
4. O que precisamos reaprender sobre nosso passado para não repetir violências no
presente?
5. Como a escola pode se tornar um espaço legítimo de escuta, narrativa e
reconstrução coletiva da história?