Talvez eu já tenha contado essa história outras vezes. Mas existem narrativas que não se
repetem — elas continuam acontecendo dentro de nós.
O que me fez embrenhar pela estrada de ser atelierista começou em minha primeira viagem
a Reggio Emilia.
Lembro de caminhar pelas escolas e encontrar, escritas nas paredes, declarações sobre os
direitos das crianças. Entre tantas palavras, uma me atravessou de forma silenciosa e
definitiva: o direito à beleza.
Naquele momento, confesso, eu ainda não compreendia a profundidade do que lia.
Mas havia algo que meu corpo já entendia antes das palavras.
O cuidado em cada detalhe.
A luz que encontrava os materiais.
As marcas das mãos das crianças tornando os espaços vivos.
O tempo desacelerado.
A delicadeza dos encontros.
Havia um zelo que parecia sustentar tudo.
Foi então que, em uma conversa, ouvi pela primeira vez o termo pedagogia della cura.
Em italiano, cura significa cuidado.
E naquele instante algo se reorganizou dentro de mim.
Percebi que o que eu estava vivendo não era apenas uma proposta pedagógica. Era uma
ética do cuidado. Uma forma de habitar a escola e a vida.
Talvez por isso eu tenha sentido algo difícil de explicar: de alguma maneira, eu também me
sentia curada.
Curada de muitas dores do educar.
Das pressas.
Do excesso de respostas.
Da sensação de esvaziamento que às vezes atravessa quem permanece muitos anos na
educação.
Como nos lembra Madalena Freire: “Educador educa a dor.”
A pedagogia da cura parecia responder silenciosamente:
com tempo,
com relações,
com presença,
com beleza.
Porque a beleza, ali, não aparecia como decoração.
Ela era princípio.
Era reconhecimento de que todo ser humano tem direito ao encantamento.
E quando o direito à beleza nos é negado, pouco a pouco também se enfraquece o direito
ao sonho.
Como sustentar pertencimento quando o cotidiano perde sentido?
Ao viver essa experiência, compreendi que o ateliê não era um lugar.
Era uma maneira de estar.
Foi então que a cultura do ateliê começou a emergir dentro de mim.
Mas ela não emergiu igual à italiana.
Ela nasceu brasileira.
Carregava outros cheiros, outras paisagens, outras perguntas.
Curiosamente, quanto mais eu mergulhava em Reggio, mais eu voltava para o Brasil.
Mais eu desejava conhecer nossa história.
Mais eu queria tocar nossa terra.
Mais eu entendia que a beleza também mora nas rendas, nas areias, no barro, nas vozes,
nos quintais, nas frestas e nas invenções do nosso povo.
Foi então que comecei a estudar com mais profundidade a ideia de Malaguzzi sobre o ateliê
e o atelierista.
Esse sujeito que entra na escola não para ensinar arte.
Mas para ampliar a capacidade de escuta.
Para criar ecos.
Ecos que nos ajudam a perceber que aquilo que buscamos para curar nossas dores
cotidianas talvez não esteja distante.
Talvez esteja no nosso próprio chão.
Desde então sigo nessa missão de semear essa prática Brasil afora.
A estrada é longa.
Às vezes árida.
Mas sempre existem brechas onde algo floresce.
E foi exatamente isso que vivi na última semana, em Fortaleza.
No Congresso Criar — um movimento que nasceu no chão do sertão nordestino e que vem
ganhando força — algo extraordinário aconteceu.
Vi nos olhos de mais de 120 educadores aquela mesma sensação de encantamento e
estupor que um dia vivi.
Em cada abraço.
Em cada corpo arrepiado.
Em cada fala emocionada.
Em cada educador reconhecendo a beleza esquecida do próprio território.
A pedagogia da cura se fez presença.
Não porque ensinamos algo.
Mas porque algo foi lembrado.
Naquele encontro, compreendi que estou no caminho certo de ser atelierista.
Não porque levo respostas.
Mas porque testemunho educadores voltando a escutar.
A si mesmos.
Aos outros.
Ao lugar que habitam.
E talvez seja isso, no fim, o que o ateliê faz:
não nos entrega um novo mundo.
Ele devolve olhos para enxergar o mundo que já estava ali.