Há um silêncio que antecede toda boa aprendizagem.
Um silêncio feito de escolhas conscientes, de materiais que esperam o gesto, de espaços
que respiram sentido.
É nesse intervalo — entre o caos e a intenção — que nasce aquilo que chamo de
pedagogia da ordem.
Nos últimos anos, falar do espaço como terceiro educador tornou-se quase um mantra. E
não sem razão. As imagens que chegam até nós, especialmente das escolas de Reggio
Emilia e de seus ateliês, encantam, provocam, despertam desejo. Crianças e adultos são
tocados por aquela estética que parece dizer: aqui o pensamento pode morar.
Mas há uma pergunta que muitas vezes fica suspensa no ar: por que esses espaços nos tocam de forma tão profunda ?
Quando essa pergunta não é feita, corre-se o risco de transformar inspiração em cópia —
de reproduzir mobiliários, arranjos e contextos acreditando que a experiência virá pronta,
como um objeto comprado e colocado no lugar certo.
Desejar uma pedagogia que caminha junto da estética não é um problema. Inspirar-se,
tampouco. Loris Malaguzzi nos ensinou que a beleza é um direito.
O que precisamos lembrar é que esse direito não se esgota na forma. Ele se revela no
gesto.
Beleza é gesto de acolher.
É gesto de organizar.
É gesto de escolher e, sobretudo, de assumir responsabilidade.
Quando falamos do espaço como terceiro educador, falamos de um espaço que sustenta,
provoca, comunica, inquieta e respeita o tempo — e as múltiplas formas de ser. Um espaço
que expressa valores sociais, culturais e políticos de uma comunidade. E isso, por si só, já
nos diz: não se copia.
Talvez o grande equívoco seja pensar o terceiro educador sem olhar com profundidade para
os dois primeiros.
O primeiro educador somos nós.
Educadores como autoridade ética e sensível, responsáveis por garantir os direitos das
crianças e promover uma educação integral. Isso exige clareza de intencionalidade: saber
reconhecer os indícios de aprendizagem — aquilo que verdadeiramente interessa às
crianças — e, ao mesmo tempo, oferecer o que elas ainda não sabem que precisam.
Extensões do corpo e do pensamento, eles conectam o sujeito ao mundo e são capazes de
materializar ideias e pensamentos nas múltiplas linguagens. Materiais falam — mas só
quando são escolhidos, organizados e apresentados com consciência.
E então chegamos ao terceiro educador: o espaço.
Um espaço que não nasce por acaso, mas que revela concepções.
Quem escolhe materiais, planeja contextos e projeta espaços são os educadores. E isso
não é trivial. É um fazer coletivo, ético e profundamente pedagógico.
É aqui que a pedagogia da ordem se torna essencial.
Antes de criar novos contextos, é preciso organizar o que já existe. Tornar visível o que a
escola tem. Permitir que todos conheçam as possibilidades do cotidiano. Habitar os
espaços de outro modo. Construir, pouco a pouco, uma gramática nas diferentes
linguagens.
Ver os materiais para além de sua função utilitária só é possível quando há uma
organização estruturada e uma apresentação estética afinada. Começar pequenas coleções
pode ser um primeiro gesto — simples, mas profundamente transformador.
Somente quando essa prática se incorpora ao cotidiano da creche e da escola de infância é que se torna possível construir repertórios mais complexos: contextos investigativos que realmente ativam aprendizagens.
Porque cada escolha carrega uma intenção.
E nem sempre isso é evidente.
É ao pensar sobre o pensar — por meio da documentação e do registro — que criamos
camadas de olhar sobre os acontecimentos. É nesse movimento que arte e pedagogia se
encontram, que estética e aprendizagem deixam de ser opostos e passam a ser uma
mesma linguagem.
Por isso, acredito profundamente que a formação em contexto é o caminho mais fértil para
que a cultura do ateliê floresça no chão da escola.
Não como modelo a ser seguido, mas como um modo de estar, de ver, de escolher e de
cuidar.
A pedagogia da ordem não organiza apenas espaços.
Ela organiza o pensamento.
E quando o pensamento encontra lugar, a aprendizagem acontece.