Planejar 2026: caminhos para uma abordagem projetual na escola da infância

Planejar é um ato politico, requer assumir o papel de autoridade e suas escolhas.

Planejar um novo ano não é apenas organizar datas, distribuir conteúdos ou preencher quadros.

Foi um convite a suspender o tempo — esse tempo que nos engole com suas urgências — e reencontrar o que, de fato, importa. Em meio à vastidão da paisagem e à potência dos mitos que se entrelaçam àquele território, foi possível silenciar o ruído do mundo para escutar as camadas de sentido que habitam o invisível.

Planejar é um ato politico , requer assumir o papel de autoridade e suas escolhas.

E toda escolha revela uma visão de infância, de conhecimento e de mundo.

Quando falamos em planejar 2026 a partir de uma abordagem projetual, estamos falando de um deslocamento profundo: sair da lógica da produtividade para habitar a lógica da experiência; sair do controle para o acompanhamento; sair da resposta para a pergunta. Da fala para escuta.

A abordagem projetual não começa no papel.

Ela começa no modo como olhamos para as crianças.

Antes de planejar, é preciso escutar

O primeiro gesto de um planejamento coerente com pedagogias participativas não é decidir o que as crianças vão aprender, mas investigar como elas pesquisam o mundo. Crianças não aprendem por acúmulo.

Aprendem por relação.

Elas observam, repetem, testam hipóteses, erram, insistem, desviam. Um planejamento projetual nasce quando o educador se dispõe a acompanhar esses movimentos, reconhecendo que as perguntas mais potentes raramente aparecem no início do ano — elas emergem no cotidiano, no corpo, no brincar, na relação com os materiais, com o território e com os outros.

Planejar, então, passa a ser:

● criar condições para que perguntas surjam

● sustentar investigações no tempo

● oferecer contextos ricos e provocadores

● estudar para compreender o que, muitas vezes, ainda não sabemos nomear

Planejamento não é previsão: é intenção aberta

Uma abordagem projetual exige intencionalidade, mas não rigidez. Há uma diferença sutil — e fundamental — entre saber onde queremos chegar e decidir previamente o caminho.

Planejar o ano nessa abordagem não significa abrir mão da responsabilidade pedagógica. Pelo contrário: exige mais estudo, mais observação, mais rigor conceitual. O educador deixa de ser executor de atividades para se tornar pesquisador do cotidiano.

Isso implica perguntar:

● Que temas atravessam a vida das crianças hoje?

● Que territórios — físicos, simbólicos e culturais — fazem parte da experiência delas?

● Que linguagens estão mais vivas neste grupo?

● Que materiais ampliam, e não empobrecem, o pensamento?

Um planejamento projetual se constrói como uma bússola, não como um mapa fechado. Ele orienta, mas não aprisiona.

O ateliê como estrutura do planejamento

Quando falamos em cultura do ateliê, não falamos de um espaço isolado nem de uma estética decorativa. Falamos de uma estrutura de pensamento que atravessa o planejamento.

O ateliê sustenta a abordagem projetual porque:
● reconhece os materiais como parceiros de investigação;
● legitima o processo acima do produto;
● acolhe o erro como parte do aprender;
● valoriza as múltiplas linguagens como formas de pensamento.

Planejar 2026 a partir do ateliê é perguntar:

● Que experiências queremos tornar possíveis?

● Que relações entre corpo, matéria, tempo e imaginação desejamos favorecer?

● Que ambientes educam junto conosco?

O ateliê não aparece como “atividade”.
Ele aparece como estado de presença.

Projetos precisam de tempo — e o tempo é uma escolha política

Um dos maiores desafios do planejamento escolar está na relação com o tempo. A infância pede tempo alongado, tempo de repetição, tempo de aprofundamento. A abordagem projetual entra em conflito direto com currículos excessivamente fragmentados e agendas saturadas.

Planejar um ano projetual implica proteger o tempo da infância.

Isso significa:

● menos temas, mais profundidade
● menos pressa, mais escuta
● menos produtos finais, mais processos documentados

Projetos não cabem em calendários engessados. Eles pedem ritmo, não aceleração.

Documentar para pensar, não para provar

Outro eixo essencial do planejamento projetual é a documentação pedagógica. Documentar não é registrar para mostrar, mas registrar para compreender.

Ao planejar 2026, vale incluir perguntas como:
● Como vamos documentar os processos das crianças?
● Que tempos coletivos teremos para analisar registros?
● Como a documentação vai orientar os próximos passos do planejamento?

A documentação é o fio que costura o projeto no tempo. Ela permite que o planejamento seja constantemente revisto, ajustado, relançado. Planejar, aqui, deixa de ser um ato inicial e passa a ser um processo contínuo de reflexão.

Planejar como gesto coletivo

Uma abordagem projetual não se sustenta em ações isoladas. Ela pede coletivo, estudo compartilhado, alinhamento ético.
Planejar o ano de 2026 pode ser uma oportunidade para:

● criar tempos de estudo em equipe
● construir acordos pedagógicos
● alinhar concepções de infância, aprendizagem e avaliação
● fortalecer uma cultura institucional de pesquisa

Projetos ganham potência quando deixam de ser “da turma” e passam a ser da escola.

Para começar

Se você deseja planejar 2026 nessa perspectiva, talvez o primeiro passo não seja escrever um plano anual, mas habitar algumas perguntas :

● Que infância queremos sustentar?
● Que tipo de educador precisamos nos tornar?
● Que experiências merecem tempo e cuidado?
● O que precisamos desaprender para escutar melhor?

Planejar, na abordagem projetual, é um gesto de coragem. Coragem de não saber tudo. Coragem de estudar. Coragem de caminhar junto. Porque uma escola que pesquisa não forma respostas rápidas. Forma sujeitos capazes de pensar, perguntar e criar sentidos no mundo. E talvez seja exatamente isso que 2026 nos pede