Quando educar é aprender a navegar

Escuta do cotidiano.

Em uma abordagem projetual, escolher um tema de pesquisa não é um ato neutro nem apressado. É um gesto ético. Um gesto que revela como concebemos a criança, o conhecimento e o papel do educador no mundo.

Um projeto não começa com um tema bonito, nem com uma pergunta pronta. Ele começa com escuta.

Escuta do cotidiano.

Escuta das crianças.
Escuta das tensões, das necessidades e dos desejos que atravessam a vida da escola.

Escutar é mais do que ouvir o que as crianças dizem. É observar como elas se movem, no que insistem, o que repetem, o que evitam, o que as inquieta. É perceber como pesquisam o mundo com o corpo inteiro — com gestos, silêncios, brincadeiras, narrativas e perguntas ainda sem palavras.

É dessa escuta que nasce a intencionalidade educativa.

Intencionalidade não é controle: é direção

Ter intencionalidade não significa conduzir as crianças por um caminho rígido, tampouco antecipar respostas. Significa saber por que escolhemos determinado tema e para quê o colocamos em relação com aquele grupo, naquele tempo, naquela escola.

Aqui, os documentos que orientam a prática pedagógica no Brasil — como a BNCC — não entram como moldura engessada, mas como chão comum. Eles nos lembram que educar é garantir direitos: de brincar, de explorar, de participar, de conviver, de se expressar e de conhecer-se.

A intencionalidade surge justamente do equilíbrio delicado entre:

● aquilo que as crianças demonstram interesse em investigar
● e aquilo que sabemos que precisam experienciar para se desenvolver plenamente

Esse equilíbrio exige do professor um deslocamento importante: assumir-se pesquisador.

O professor como pesquisador do cotidiano

Ser pesquisador não é aplicar teorias sobre as crianças. É o contrário.

É partir do que vemos — ou do que suspeitamos — e recorrer às teorias como lentes que nos ajudam a enxergar melhor.

A teoria não serve para encaixar a criança.

Serve para ampliar o olhar do adulto.

Muitas vezes, sem esse apoio teórico, passariam despercebidos gestos potentes, aprendizagens silenciosas, relações complexas que se constroem no brincar, na repetição, no erro, no desvio. A teoria nos ajuda a nomear, compreender, sustentar e relançar contextos com mais consciência e responsabilidade.

Abordagem projetual: navegar com rota, mas atentos aos ventos

Um projeto pode ser pensado como um barco a vela no mar.

Sem rota ou direção, ele fica à deriva.

Mas um barco que ignora os ventos, as correntes e o clima também não chega longe.

Na abordagem projetual, é fundamental saber onde queremos chegar: quais aprendizagens desejamos favorecer, quais experiências ampliar, quais direitos garantir. Ao mesmo tempo, é preciso estar aberto aos desvios, aos imprevistos, às novas perguntas que surgem no percurso.

Esses desvios não são falhas do planejamento.

São o próprio território da aprendizagem.

Eles nos colocam em relação com outros tempos, outros espaços, outras pessoas. Ensinar e aprender passa a ser também aprender a conviver, negociar sentidos e construir caminhos coletivos.

Um bom tema nasce de um problema real

A escolha de um bom tema de projeto não parte apenas da curiosidade das crianças, nem apenas dos interesses do adulto. Ela nasce de um problema, de uma necessidade ou de uma pergunta viva da escola.

O que precisa ser cuidado neste grupo?
O que pulsa neste território?
O que atravessa o cotidiano e pede investigação?

A intencionalidade educativa está exatamente nesse encontro entre o que interessa e o que é necessário.

Contextos educativos: espaço que educa para a participação

E os contextos educativos?
Eles não são cenários neutros nem simples arranjos estéticos.

Contextos são formas conscientes de organizar o espaço para promover autonomia, liberdade e participação. Eles sustentam uma ideia clara de criança: ativa, potente, capaz de criar e aprender em relação.

Diferente do que muitos pensam, organizar o espaço a partir de contextos exige regras e princípios — éticos, estéticos e políticos. Não se trata de mobiliário ou materiais específicos, mas da coerência entre o que se diz e o que se vive no cotidiano.

A cultura do ateliê não se sustenta em objetos.
Sustenta-se em relações.

A escola é feita de pessoas

No fim, é importante lembrar: uma escola não é um prédio, nem um currículo escrito. É feita de pessoas. De adultos e crianças que convivem, erram, acertam, aprendem e se transformam juntos.

Nesse sentido, a arte se torna uma grande aliada do processo formativo e autoformativo. Ela acorda os sentidos, amplia a escuta e nos torna mais disponíveis ao encontro com o outro e com o mundo.

Um corpo atento sente mais.
Um educador sensível percebe mais.
E uma educação democrática nasce justamente desse compromisso de construir significados para melhor se relacionar com o mundo e com os outros.

Escolher um tema de pesquisa, portanto, é escolher como queremos habitar a escola e que tipo de mundo desejamos ajudar a construir com as crianças.

Não se trata de chegar rápido.
Trata-se de chegar juntos.