Sobre democracia, educação e a responsabilidade pelo mundo que entregamos às crianças
Por Daniela Mello | Conversas e Vivências
Pensei muito antes de escrever este texto.
Talvez porque, em tempos de tantas certezas, escolher fazer perguntas pareça um gesto cada vez mais difícil.
Depois de passar mais de quinze dias em Berlim, retornei ao Brasil trazendo algumas inquietações na mala. E, às vésperas do segundo turno das eleições, essas inquietações ganharam outros sentidos.
Berlim é uma cidade que escolheu não apagar as marcas de sua história.
Seus muros, memoriais, museus e espaços públicos nos lembram continuamente do que pode acontecer quando uma sociedade começa a naturalizar discursos de intolerância, silenciar diferenças e aceitar que determinadas pessoas tenham menos direito de existir, pensar ou participar da vida coletiva.
Durante minha visita ao Memorial aos Judeus Assassinados da Europa, algo aparentemente simples chamou minha atenção.
Uma placa com o nome da rua: Hannah-Arendt-Straße.
Ali, diante de um monumento que nos convoca a recordar uma das maiores tragédias da humanidade, encontrei o nome de uma pensadora que dedicou parte importante de sua obra à compreensão do totalitarismo, da condição humana e de nossa responsabilidade diante do mundo.
Aquela placa me fez recordar um pensamento de Hannah Arendt, presente em seu ensaio A crise na educação: educar é também decidir se amamos o mundo o suficiente para assumir a responsabilidade por ele.
Fiquei pensando no significado dessas palavras naquele lugar.
Que mundo estamos entregando às crianças?
O que significa assumir responsabilidade por um mundo que tantas vezes nos decepciona, nos indigna e nos faz perder a esperança?
E, sobretudo, o que estamos dispostos a fazer para que as próximas gerações não precisem reviver aquilo que a história já nos ensinou a temer?
Arendt nos provoca a compreender que educar não significa apenas apresentar o mundo às crianças. Significa também assumir responsabilidade por ele, sem retirar das novas gerações a possibilidade de renová-lo.
Talvez seja justamente essa uma das tensões mais profundas da educação: preservar aquilo que merece continuar existindo e, ao mesmo tempo, abrir espaço para aquilo que ainda não fomos capazes de imaginar.
Voltei de Berlim pensando nisso.
E pensando no Brasil.
É impossível olhar para o momento que vivemos sem reconhecer as desigualdades que continuam atravessando nossa sociedade, as violências que se repetem, os direitos que ainda precisam ser efetivados e as dificuldades de tantas famílias para acessar condições dignas de saúde, educação, cultura e bem-estar.
É compreensível que estejamos cansados.
Há uma espécie de esgotamento coletivo diante de tantas notícias, disputas, promessas e injustiças que parecem permanecer, independentemente de quem esteja no poder.
Em alguns momentos, a desesperança se instala silenciosamente.
Deixamos de acreditar que as coisas possam ser diferentes. E, quando isso acontece, corremos o risco de começar a considerar inevitável aquilo que deveria continuar nos indignando.
Vivemos, paradoxalmente, em um tempo de abundância de informações e de enorme dificuldade para construir compreensão.
Recebemos notícias em fragmentos. Compartilhamos manchetes antes de conhecer seus contextos. Somos convocados a tomar posições cada vez mais rapidamente, muitas vezes sem tempo para investigar os acontecimentos ou considerar perspectivas que desafiem nossas convicções.
Mas estar informado não significa, necessariamente, compreender.
E ter uma opinião não significa que ela tenha sido construída a partir de uma reflexão cuidadosa.
Jonathan Haidt, em seu livro A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião, apresenta uma contribuição interessante para pensarmos esse fenômeno.
Seus estudos sobre psicologia moral sugerem que nossas intuições frequentemente antecedem nossos argumentos. Muitas vezes, sentimos que alguma coisa é certa ou errada
antes mesmo de conseguirmos explicar por quê. Depois, procuramos razões que sustentem aquilo em que já acreditávamos.
Haidt utiliza a metáfora de um elefante e seu condutor para nos ajudar a compreender essa relação entre intuição e raciocínio.
Essa perspectiva nos provoca a reconhecer que nossas decisões não são construídas exclusivamente pela análise racional dos fatos. Elas também são atravessadas por emoções, experiências, valores, pertencimentos e vínculos sociais.
Talvez isso ajude a compreender por que determinados discursos encontram tanta adesão, mesmo quando apresentam simplificações, contradições ou informações equivocadas.
Não basta apresentar fatos esperando que, automaticamente, as pessoas modifiquem suas convicções.
É preciso compreender os sentidos que elas atribuem ao mundo.
Mas isso não significa que todas as afirmações sejam igualmente verdadeiras, nem que toda posição possa ser justificada como uma simples diferença de opinião.
Pelo contrário.
Talvez seja justamente por isso que precisemos recuperar uma disposição tão importante para a vida democrática: a capacidade de conversar com quem pensa diferente sem abrir mão do pensamento crítico.
Uma conversa que não seja apenas a espera pela nossa vez de responder. Uma conversa que admita a possibilidade de não sabermos tudo.
Uma conversa que nos permita rever certezas.
E aqui encontro uma aproximação profunda com a educação.
Afinal, não é também isso que desejamos quando falamos de escuta, investigação, participação e construção coletiva do conhecimento?
Durante muito tempo me perguntei se deveria ou não manifestar publicamente minhas posições políticas.
Acredito profundamente no direito de cada pessoa construir suas próprias convicções, professar sua fé ou não professar nenhuma, escolher seus representantes e compreender o mundo a partir de diferentes perspectivas.
Vivemos em um Estado laico e democrático justamente para que essa pluralidade possa existir.
Mas há momentos em que precisamos deslocar a discussão de nossas preferências partidárias para os princípios que tornam possível a própria vida democrática.
Às vésperas do segundo turno das eleições, essa reflexão se torna especialmente necessária.
Talvez precisemos compreender que algumas questões ultrapassam as tradicionais distinções entre esquerda e direita.
É legítimo que tenhamos diferentes visões políticas, que discordemos sobre os caminhos para o desenvolvimento do país, sobre as prioridades de governo e sobre as maneiras de enfrentar nossas desigualdades.
Essa pluralidade é, afinal, uma das expressões da própria democracia.
Mas há algo que precisa permanecer como fundamento comum, independentemente das nossas escolhas partidárias: o compromisso com a manutenção do Estado Democrático de Direito, com as instituições que o sustentam e com os direitos e liberdades que tornam possível nossa convivência.
É a partir desse compromisso que precisamos examinar propostas, discursos e práticas políticas, perguntando não apenas que futuro prometem, mas quais condições oferecem para que continuemos vivendo em uma sociedade na qual seja possível pensar, acreditar, criar, discordar e participar.
Porque a democracia não nos exige concordância.
Ela exige o reconhecimento de que nossas diferenças só podem continuar existindo livremente quando os direitos de todos são respeitados.
E talvez seja exatamente esse o ponto que não podemos perder de vista.
A Constituição Federal de 1988 representou uma conquista histórica depois de mais de duas décadas de ditadura militar.
Com ela, o Brasil reafirmou liberdades fundamentais, reconheceu a igualdade entre mulheres e homens, estabeleceu a saúde como direito de todos e dever do Estado, assegurou direitos culturais e consolidou a proteção integral de crianças e adolescentes.
Não estamos falando de princípios abstratos.
Estamos falando do direito de uma mulher viver sem discriminação e violência.
Do direito de uma pessoa receber atendimento de saúde independentemente de sua condição econômica.
Do direito de uma criança brincar, aprender, ser protegida e participar da vida social.
Do direito de artistas criarem, questionarem e expressarem diferentes interpretações do mundo.
Do direito de cada pessoa existir em sua singularidade, sem que sua origem, crença, identidade ou maneira de viver a torne menos digna de respeito.
Estamos falando, em última instância, das condições para que a vida seja mais do que a sobrevivência.
E essas conquistas não surgiram espontaneamente.
Foram construídas por movimentos sociais, mulheres, trabalhadores, educadores e tantas pessoas que, antes de nós, lutaram pela possibilidade de viver em uma sociedade mais justa e democrática.
Por isso, os direitos não podem ser compreendidos como garantias que, uma vez escritas, estarão definitivamente asseguradas.
Eles dependem de instituições, políticas públicas, participação social e vigilância democrática para se tornarem realidade na vida cotidiana.
Podem ser ampliados. Podem ser negligenciados. Podem sofrer retrocessos.
Talvez um dos maiores perigos seja acreditar que determinadas conquistas jamais poderão ser perdidas.
Talvez mais do que costumamos imaginar.
Quando a arte é compreendida apenas como entretenimento, esquecemos sua capacidade de interrogar o mundo, produzir deslocamentos, preservar memórias e tornar visíveis experiências que muitas vezes permanecem silenciadas.
Quando o acesso à cultura é restringido ou a liberdade artística é deslegitimada, não perdemos apenas manifestações culturais. Reduzimos também as possibilidades de uma sociedade imaginar, questionar e produzir outros sentidos para sua existência.
Quando a saúde deixa de ser pensada como direito coletivo, a desigualdade passa a determinar, de maneira ainda mais profunda, as condições de cuidado, adoecimento e sobrevivência.
Quando direitos das mulheres são relativizados, não estamos discutindo apenas escolhas individuais. Estamos discutindo autonomia, proteção, participação social e relações de poder historicamente construídas.
E quando os direitos das crianças são tratados como algo secundário, colocamos em risco não apenas suas condições presentes de vida, mas o próprio compromisso de uma
sociedade com aqueles que ainda dependem especialmente dos adultos e das instituições para a garantia de seus direitos.
Há algo que conecta essas diferentes dimensões.
Todas dizem respeito ao reconhecimento da dignidade humana.
E todas exigem que sejamos capazes de olhar para além das nossas experiências particulares.
Uma sociedade democrática não pode ser medida apenas pela liberdade que oferece àqueles com quem concordamos.
Ela precisa ser reconhecida também pela maneira como protege os direitos de quem pensa, vive, acredita e se expressa de maneira diferente.
A democracia não exige que concordemos em tudo.
Mas exige que reconheçamos limites para nossas discordâncias.
O direito de pensar diferente não pode ser confundido com autorização para retirar direitos, justificar violências ou negar a dignidade do outro.
E é justamente aqui que retorno à pergunta que me acompanhou durante minha visita a Berlim.
Que responsabilidade assumimos pelo mundo que estamos deixando às próximas gerações?
Talvez esta seja a pergunta que mais me mobiliza.
Há mais de trinta anos, minha trajetória profissional é atravessada por pesquisas e experiências com pedagogias que reconhecem as crianças como sujeitos capazes de pensar, criar, interpretar, argumentar, construir hipóteses, estabelecer relações e participar da vida coletiva.
Quanto mais estudo a experiência educativa de Reggio Emilia, mais compreendo que sua potência não está apenas nas escolhas metodológicas, na organização dos ambientes ou na riqueza das materialidades.
Está, sobretudo, na concepção de humanidade que sustenta essas escolhas.
A história da educação em Reggio Emilia é atravessada por experiências anteriores à Segunda Guerra Mundial e por um importante movimento de reconstrução no pós-guerra, no qual mulheres, famílias e comunidades tiveram participação decisiva na criação e na defesa de escolas para as crianças pequenas.
Em uma sociedade marcada pelas consequências do fascismo e da guerra, educar significava também participar da reconstrução das relações sociais e da vida democrática.
Havia ali algo muito maior do que o desejo de criar uma escola diferente. Havia a possibilidade de imaginar outra forma de viver juntos.
Talvez seja por isso que participação, escuta, diálogo, diferença, expressão e construção coletiva tenham um lugar tão profundo nessa filosofia.
E talvez seja também por isso que me inquiete tanto perceber o quanto, em alguns contextos, a cultura do ateliê tem sido reduzida à sua aparência.
Muitas escolas desejam hoje ter um ateliê.
Constroem ambientes belos, selecionam materiais, reorganizam mobiliários e apresentam às famílias imagens que comunicam uma educação contemporânea e inovadora.
Mas o que acontece quando a estética do espaço não encontra correspondência na ética das relações?
Podemos falar de protagonismo e participação quando as decisões continuam inteiramente concentradas nos adultos?
Podemos afirmar que desejamos crianças críticas e autônomas e, ao mesmo tempo, esperar que apenas reproduzam nossas certezas?
Podemos defender a escuta quando não admitimos que aquilo que escutamos transforme nossas escolhas?
Existe uma contradição profunda em desejar a estética de uma pedagogia e rejeitar os princípios políticos que a sustentam.
Porque o ateliê não é apenas um lugar onde as crianças encontram diferentes materiais para experimentar.
É também um espaço onde diferentes modos de pensar podem ganhar forma, tornar-se visíveis, encontrar outros pensamentos e produzir novos sentidos.
Uma criança que investiga não está apenas manipulando objetos.
Ela está construindo relações com o mundo.
Uma criança que apresenta uma hipótese diferente não está simplesmente cometendo um erro.
Está revelando uma interpretação que merece ser escutada, investigada e colocada em diálogo.
Uma criança que encontra espaço para argumentar, discordar, negociar e participar está vivendo experiências fundamentais para compreender a si mesma e aos outros.
A cultura do ateliê, quando compreendida em sua profundidade, nos convoca a reconhecer a diferença como potência, e não como ameaça.
Por isso, antes do ateliê, existe uma imagem de criança.
E, antes dessa imagem de criança, existe uma imagem de humanidade.
Paulo Freire nos ajuda a compreender que a educação não é neutra.
Mas considero importante reconhecer uma distinção essencial: dizer que a educação é política não significa defender uma educação partidária.
A escola não deveria ser um espaço de imposição de convicções, tampouco de constrangimento daqueles que pensam de maneira diferente.
Ao contrário, sua responsabilidade está em ampliar as possibilidades de compreender o mundo, examinar argumentos, construir conhecimento e participar da vida coletiva com autonomia e responsabilidade.
Uma prática democrática não se sustenta pela repetição de discursos sobre democracia. Ela se constrói nas relações cotidianas.
Na maneira como adultos escutam as crianças.
Na possibilidade de discordar sem ser humilhado.
Na forma como conflitos são acolhidos e negociados.
Nas oportunidades reais de participação.
Na valorização das diferentes linguagens.
Na disposição de rever decisões quando novos pensamentos entram em cena.
O perigo de uma educação que não sustenta práticas democráticas é justamente este: podemos acabar ensinando obediência enquanto anunciamos autonomia.
Podemos exigir silêncio enquanto discursamos sobre escuta.
Podemos oferecer escolhas aparentes enquanto mantemos todas as decisões sob nosso controle.
Podemos celebrar a criatividade desde que ela permaneça dentro dos limites daquilo que já imaginávamos.
E podemos desejar crianças capazes de transformar o mundo sem admitir que elas transformem, primeiro, a própria escola.
Essas contradições merecem nossa atenção.
Porque as crianças não aprendem conosco apenas aquilo que ensinamos intencionalmente. Elas aprendem também observando como habitamos o mundo.
Aprendem sobre respeito quando percebem que podemos sustentar convicções sem desqualificar pessoas.
Aprendem sobre participação quando suas opiniões produzem consequências reais. Aprendem sobre justiça quando observam como tratamos aqueles que têm menos poder.
Aprendem sobre democracia quando vivem relações nas quais a diferença não precisa ser eliminada para que a convivência seja possível.
Mas também aprendem com nossos silêncios.
Com aquilo que naturalizamos.
Com as injustiças que deixamos de questionar.
Com as formas de exclusão que permanecem invisíveis porque já nos acostumamos com elas.
Talvez por isso seja tão importante reconhecer que educar para a democracia exige mais do que ensiná-la como conteúdo.
Exige construir experiências cotidianas nas quais ela possa ser vivida.
Sei que não é simples sustentar a esperança em tempos de tantas contradições.
Também sei que não basta convocar as pessoas à participação sem reconhecer as dificuldades concretas que enfrentam para participar.
Uma sociedade profundamente desigual não oferece a todos as mesmas condições de acesso à informação, à educação, à saúde, à cultura ou aos espaços de decisão.
Precisamos olhar para essas desigualdades sem simplificações.
E precisamos reconhecer que o desencanto com a política, muitas vezes, nasce de experiências reais de abandono, injustiça e promessas não cumpridas.
Mas há uma diferença entre reconhecer o esgotamento e permitir que ele nos retire a capacidade de imaginar alternativas.
A desesperança pode nos levar a acreditar que nada merece ser defendido porque nada poderá ser transformado.
E talvez seja justamente aí que a história nos faça um alerta.
As conquistas democráticas foram construídas por pessoas que também viveram períodos de medo, desigualdade e incerteza.
Pessoas que não possuíam garantias de que seus esforços produziriam os resultados desejados.
Mas que compreenderam a importância de participar das decisões sobre o mundo em que viviam.
Não acredito que nossa responsabilidade seja convencer todos a pensar da mesma maneira.
Isso seria negar justamente os princípios que procuro sustentar.
Acredito, porém, que temos a responsabilidade de não renunciar à investigação, ao pensamento crítico, à memória histórica e à defesa da dignidade humana.
Temos o direito de discordar sobre caminhos, prioridades e projetos de governo.
Mas precisamos compreender as consequências concretas das escolhas que fazemos, especialmente para aqueles cujos direitos e condições de vida podem ser mais profundamente afetados por elas.
Talvez precisemos conversar mais e reagir menos.
Ler além dos títulos.
Investigar as fontes.
Conhecer a história.
Examinar propostas e suas consequências.
Reconhecer nossas próprias contradições.
E, principalmente, recuperar a capacidade de olhar para o outro como alguém cuja existência não pode ser reduzida à posição que ocupa em uma disputa.
Ao escrever estas últimas linhas, volto àquela rua de Berlim.
À placa com o nome de Hannah Arendt.
Ao silêncio que acompanha a visita ao memorial.
E às perguntas que começaram a ganhar forma naquele lugar.
A história não deveria servir apenas para nos contar aquilo que aconteceu.
Ela deveria nos ajudar a reconhecer os sinais daquilo que não desejamos ver acontecer novamente.
Volto também ao pensamento de Arendt sobre a responsabilidade dos adultos diante do mundo.
Talvez essa responsabilidade não esteja em oferecer às crianças um mundo pronto, organizado segundo nossas certezas, nem em transferir a elas a obrigação de resolver aquilo que não conseguimos transformar.
Nossa responsabilidade é apresentar-lhes o mundo com suas belezas e contradições, sem esconder sua complexidade, e oferecer condições para que possam conhecê-lo, questioná-lo e, um dia, renová-lo.
É aqui que encontro o sentido mais profundo das pedagogias participativas.
Elas não representam apenas uma maneira diferente de organizar espaços, escolher materiais ou planejar experiências.
Representam uma escolha ética, estética e política sobre as relações que desejamos construir.
Uma escolha que reconhece a criança como sujeito de direitos, pensamento e cultura. Que compreende a diferença como parte constitutiva da vida coletiva. Que reconhece o diálogo como possibilidade de construção do conhecimento. E que não separa aquilo que defendemos daquilo que efetivamente vivemos. Talvez não seja possível mudar o mundo inteiro a partir de uma escola. Mas também não podemos ignorar o mundo que ajudamos a construir dentro dela.
Às vésperas de mais uma eleição, não escrevo porque acredito que precisamos continuar conversando sobre os princípios que sustentam nossas escolhas e sobre o que desejamos preservar para aqueles que virão depois de nós.
Escrevo porque acredito que no próximo dia 25 nosso voto decidirá a maneira como convivemos, escutamos, discordamos, participamos e reconhecemos a dignidade do outro.
E porque acredito que a educação tem uma responsabilidade profunda nessa construção.
Não a responsabilidade de formar pessoas que pensem como nós.
Mas de contribuir para que possam pensar por si mesmas, reconhecer injustiças, conviver com as diferenças e participar da construção de um mundo comum.
Talvez seja esse o convite mais importante que trouxe de Berlim.
Não esquecer.
Não naturalizar.
Não abrir mão da possibilidade de imaginar outros futuros.
E reconhecer que a responsabilidade pelo mundo não pertence apenas àqueles que ocupam posições de poder.
Ela também se revela em nossos gestos cotidianos, em nossas escolhas educativas e nas relações que tornamos possíveis.
Antes de perguntar que escola desejamos construir, precisamos continuar perguntando: que sociedade desejamos tornar possível?
E deixo aqui um convite.
Que este texto não encerre uma discussão, mas abra uma conversa.
Uma conversa que possa acolher diferentes experiências, dúvidas e pontos de vista, sem abandonar o compromisso com os direitos humanos e com a vida democrática.
Referências
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2022. Especialmente o ensaio “A crise na educação”.
HAIDT, Jonathan. A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião. Tradução de Wendy Campos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Especialmente os artigos 1º, 3º, 5º, 6º, 196, 215, 216 e 227. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.
Daniela Mello
Conversas e Vivências — Cultura do Ateliê, Infâncias e Pedagogias Participativas