Documentar é também escolher o que uma escola decide não deixar desaparecer.
Uma pintura esquecida no depósito do Museu Nacional da Noruega, uma natureza-morta sem autoria definida, voltou a ser olhada.
Durante muito tempo, aquela obra permaneceu entre tantas outras, sem que se soubesse exatamente quem a havia pintado. Até que uma curadora, enquanto pesquisava a artista flamenga Clara Peeters, desconfiou de que aquela pintura pudesse ser sua.
E então começou uma investigação.
Não a partir de uma grande descoberta, mas daquilo que talvez seja o gesto inaugural de toda pesquisa: olhar novamente.
A madeira utilizada foi investigada. A composição foi comparada a outras obras da artista. Pequenos detalhes começaram a revelar aproximações entre eles, a maneira muito particular de pintar as uvas.
Mas havia um problema.
Clara Peeters costumava assinar suas pinturas, e naquela obra não havia assinatura.
Havia, entretanto, outra pista.
Peeters tinha um hábito singular: escondia pequenos autorretratos em suas naturezas-mortas, refletidos nas superfícies metálicas de jarras, taças e objetos brilhantes.
Era preciso, portanto, aproximar-se ainda mais.
Ao ampliar detalhes da pintura, contornos quase imperceptíveis começaram a aparecer. Formas que poderiam corresponder a figuras humanas.
E a ausência da assinatura ganhou também uma possível explicação: parte inferior do suporte de madeira havia sido danificada ao longo dos séculos.
Depois de uma longa investigação, a obra foi reconhecida como pertencente a Clara Peeters e integrada a uma exposição dedicada às mulheres artistas que trabalharam entre os séculos XVI e XVII.
Foi uma pergunta que nasceu depois dela.
A equipe do museu iniciou uma nova frente de investigação: procurar mulheres escondidas sob a palavra “anônimo”.
E imediatamente pensei nas infâncias.
Pensei na imensa responsabilidade dos educadores como testemunhas da vida, da história e da memória dos grupos e das crianças que habitam diariamente creches e escolas da infância.
Porque, afinal:
quem decide o que permanece visível em uma escola?
Quando uma criança acompanha uma formiga caminhando pelo jardim e passa dias observando seu percurso, elaborando hipóteses, fazendo perguntas e construindo pequenas teorias científicas (e ninguém registra esse processo), algo desaparece.
Desaparece uma maneira de pensar.
Quando um corredor é visto somente como passagem, talvez permaneça invisível o território de investigação que já existia ali.
Quando uma pintura recebe durante séculos a autoria “anônima”, não desaparece somente um nome. Desaparece, de alguma maneira, uma história.
Documentar, portanto, nunca é um gesto neutro.
Ao escolher o que fotografamos, o que escrevemos, o que registramos e o que colocamos nas paredes, estamos também escolhendo aquilo que uma escola decide não deixar desaparecer.
Estamos construindo uma narrativa sobre um tempo, uma cultura e uma infância.
E, inevitavelmente, decidindo também aquilo que permanecerá invisível.
Hoje, ao caminhar por um espaço cotidiano, lembrei-me daquela pintura esquecida.
E uma pergunta me acompanhou:
O que sempre esteve aqui e eu ainda não fui capaz de ver?
Parei.
Suspendi um pouco o tempo.
Gastei a cena.
Voltei às imagens que havia registrado naquele território e procurei olhá-las com atenção e algum distanciamento.
Então algo diferente se revelou.
O curioso é que nada havia aparecido de repente.
Aquilo já estava lá.
O que mudou foi o meu olhar.
Um olhar que, por alguns instantes, precisou abrir mão das certezas e permanecer disponível ao encontro com o mundo.
Porque o olhar nunca é neutro.
Aprendemos culturalmente aquilo que merece nossa atenção. Aprendemos o que considerar importante, bonito, produtivo, digno de memória.
Talvez por isso Loris Malaguzzi tenha trazido o atelierista para dentro da escola.
Não para acrescentar “atividades de arte” ao currículo, mas para introduzir uma maneira diferente de olhar.
A arte desestabiliza.
Rompe certezas.
Cria brechas.
Coloca em relação coisas que aparentemente não pertenciam umas às outras.
Quando arte e cultura ocupam um lugar central na educação, outras maneiras de habitar o mundo, construir conhecimento e expressar pensamentos tornam-se possíveis.
É também por isso que defender a presença das artes na educação significa compreendê-las não como ornamento ou acessório curricular, mas como dimensão fundamental da experiência humana.
Talvez esteja aí uma das forças mais profundas da ideia das cem linguagens: reconhecer a beleza do diverso e compreender a diferença como potência pedagógica.
O atelierista, portanto, não é um mágico que retira da cartola materiais extraordinários e propostas mirabolantes.
É alguém que ajuda a ampliar a escuta do mundo.
Alguém que provoca um pensamento divergente, capaz de colocar coisas em relação e produzir significados onde antes parecia não haver conexão alguma.
É conseguir enxergar um ateliê cromático no reflexo de uma janela.
Perceber possibilidades gráficas onde alguém via apenas uma pilha de escovas antigas.
Reconhecer teorias científicas no gesto de uma criança que caminha lentamente por um jardim.
É disso que falamos quando afirmamos:
o ateliê começa no olhar.
Não se trata de um olhar que simplesmente vê.
Trata-se de um olhar que entra em relação.
Que aproxima.
Que estranha.
Que pergunta.
Que cria conexões.
Um olhar semelhante àquele que fez uma curadora retornar a uma pintura esquecida e perguntar se, por trás daquilo que durante tanto tempo havia permanecido sem nome, não existiria uma história ainda esperando para ser reconhecida.
Talvez esteja na hora de nós, educadores, pararmos de olhar somente para aquilo que falta. O espaço que falta.
O material que falta.
O ateliê que falta.
O recurso que falta.
E começarmos a investigar aquilo que já está aqui.
Porque assumir a responsabilidade pelo nosso fazer pedagógico também significa compreender que aquilo para o qual escolhemos olhar ganha possibilidade de existir na memória coletiva.
E aquilo que não vemos corre o risco de desaparecer.
Na próxima vez que atravessarmos o portão da escola, talvez possamos caminhar um pouco mais devagar.
Olhar novamente para aquele corredor.
Para aquela janela.
Para o jardim.
Para os objetos cotidianos.
E, principalmente, para as crianças.
Como quem procura vestígios de algo precioso que sempre esteve diante de nós. E perguntar:
O que já está aqui que eu ainda não aprendi a ver?
Você já sabe que sua escola tem um ateliê escondido.
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