Quem escreve as memórias da escola?

Sobre cartas, infâncias e a artesania de deixar marcas no mundo

Esta semana terminei a leitura de A Correspondente, de Virginia Evans. E há livros que não terminam quando chegamos à última página. Permanecem conosco, atravessam nossos pensamentos e, de alguma maneira, nos devolvem perguntas que talvez já habitassem nossas inquietações.

Foi assim com essa leitura.

A história de Sybil van Antwerp, uma mulher que escreve cartas ao longo da vida, me fez pensar sobre muitas coisas. Sobre os vínculos que construímos, as palavras que escolhemos, os silêncios que carregamos e as histórias que deixamos pelo caminho.

Sobre cartas, infâncias e a artesania de deixar marcas no mundo

Mas, sobretudo, me fez pensar sobre a memória.

Há algo de profundamente humano no gesto de escrever uma carta. Antes de chegar às mãos de alguém, ela precisou de um tempo. O tempo de pensar, escolher as palavras, organizar sentimentos, encontrar uma maneira de dizer aquilo que, muitas vezes, ainda não sabemos exatamente como nomear.

A mão percorre o papel enquanto o pensamento encontra sua forma. Há hesitações, pausas, rasuras. Há uma materialidade nesse gesto que revela algo importante: escrever também é uma maneira de elaborar a própria experiência.

Uma carta não é apenas uma mensagem destinada a alguém. É também um testemunho de quem a escreveu, de um tempo vivido, das relações que o constituíram e das perguntas que atravessaram sua existência.

Ao revisitarmos cartas antigas, não encontramos apenas informações. Encontramos modos de pensar, de sentir e de habitar o mundo. Encontramos marcas de uma época, acontecimentos que pareciam pequenos, mas que, reunidos, ajudam a contar a história de uma vida. 

E talvez seja por isso que essa leitura tenha me levado tão rapidamente ao território que há tantos anos ocupa minhas pesquisas: a escola.

A necessidade humana de deixar marcas

Muito antes de inventarmos os sistemas de escrita que conhecemos, nossos ancestrais já deixavam marcas nas paredes das cavernas. 

Desenhos, pigmentos, impressões de mãos, sinais.

Essas marcas não constituíam necessariamente uma escrita no sentido convencional do termo, mas testemunham uma antiga capacidade humana de produzir símbolos, comunicar experiências e inscrever sua presença no mundo. 

Penso em Emilia Ferreiro e em suas contribuições para compreendermos a escrita como um objeto cultural e social, cuja apropriação pelas crianças envolve a construção de hipóteses, relações e significados. 

A escrita não começa nem termina na reprodução correta de um código. Ela participa de uma história cultural muito mais ampla, na qual os seres humanos criam formas de comunicar, representar, interpretar e transformar a realidade. 

Talvez exista, nessa necessidade de produzir marcas, um desejo profundo de não passar despercebido pelo mundo. 

De dizer: estivemos aqui. 

Vivemos, pensamos, sentimos, construímos relações. 

E o que escolhemos registrar também revela aquilo que consideramos digno de permanecer.

Escovar as palavras, escovar a história

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas, apresenta uma imagem que considero extraordinária: a de escovar palavras. 

Inspirado no trabalho de arqueólogos que escovam ossos para encontrar vestígios de antigas civilizações, o poeta imagina a possibilidade de fazer algo semelhante com as palavras, procurando os sentidos e as vozes que nelas permanecem guardados. 

Gosto de pensar que escrever exige um pouco dessa disposição arqueológica. 

É preciso retirar a poeira dos acontecimentos, aproximar-se daquilo que passou despercebido, encontrar significados onde antes víamos apenas fragmentos do cotidiano. 

Walter Benjamin, por outro caminho, nos provoca a escovar a história a contrapelo. 

Sua reflexão nos convida a desconfiar das narrativas que apresentam o passado como uma sequência inevitável de acontecimentos e conquistas. A história também precisa ser interrogada a partir das vozes que não foram ouvidas, das experiências que não foram reconhecidas, das memórias que permaneceram à margem. 

E não seria esse também um compromisso fundamental da educação? 

Quais histórias escolhemos contar? Quais experiências consideramos dignas de registro? Que vozes permanecem ausentes das narrativas escolares? 

Essas perguntas me fazem pensar que registrar nunca é um gesto inteiramente neutro.

Toda narrativa envolve escolhas. Ao escrever, selecionamos acontecimentos, construímos relações, atribuímos significados e tornamos visível uma determinada maneira de compreender o mundo. 

Por isso, fazer memória é também um ato ético e político.

Quem guarda as memórias das infâncias?

Quando transporto essas reflexões para o cotidiano da Educação Infantil, penso imediatamente na documentação pedagógica. 

Há muitos anos defendo que documentar não é simplesmente reunir fotografias, organizar portfólios ou produzir registros para comprovar que determinadas atividades foram realizadas. 

Documentar é um exercício de interpretação e construção de sentido. 

É tornar visíveis os pensamentos, as investigações, as relações e os processos de aprendizagem das crianças. É reconhecer que aquilo que acontece no cotidiano da escola merece ser observado, estudado, narrado e compartilhado. 

Mas há uma dimensão ainda mais profunda nesse compromisso. 

As crianças têm direito a uma história que reconheça sua presença, suas ideias e sua participação na construção do mundo. 

Quando documentamos, estamos dizendo que suas perguntas importam. Que suas hipóteses merecem atenção. Que suas descobertas não são acontecimentos menores, destinados a desaparecer na velocidade da rotina. 

Estamos também construindo uma memória coletiva das infâncias e da própria instituição educativa. 

Penso nas tantas pesquisas que acontecem silenciosamente nos ateliês, nos jardins, nos pátios, nos encontros entre crianças e materialidades. 

Quantas dessas histórias permanecem? 

Quantas acabam reduzidas a uma fotografia acompanhada de uma legenda apressada? 

Quantas investigações deixam de ser aprofundadas porque não encontramos tempo para revisitá-las? 

A documentação pedagógica nos convoca a uma responsabilidade que vai além do registro: interpretar os acontecimentos, estabelecer relações, sustentar a continuidade das pesquisas e reconhecer as crianças como participantes da história que está sendo construída.

É nesse sentido que compreendo a documentação como um ato de memória, mas também como um compromisso com o futuro. 

Documentamos não apenas para recordar o que aconteceu, mas para compreender o que aquelas experiências podem nos ensinar sobre os próximos passos.

E quem conta as histórias dos educadores?

A leitura de A Correspondente também me levou a uma pergunta que considero urgente. 

Se reconhecemos o direito das crianças de terem suas histórias contadas, que lugar estamos oferecendo às narrativas dos educadores? 

Onde ficam registradas as dúvidas que atravessaram uma professora diante de uma situação inesperada? 

As escolhas que precisaram ser revistas? 

As descobertas que transformaram sua maneira de compreender uma criança? As perguntas que fizeram nascer um projeto? 

As pequenas decisões cotidianas que, silenciosamente, modificaram a cultura de uma escola? 

Penso em Madalena Freire e em seu livro A paixão de conhecer o mundo, no qual os registros da experiência educativa nos permitem acompanhar não apenas os processos vividos pelas crianças, mas também a construção do pensamento de uma educadora. 

Em seus estudos sobre observação, registro e reflexão, Madalena nos ajuda a compreender a escrita como parte constitutiva do trabalho docente. 

Escrever exige revisitar a experiência, reconhecer contradições, interrogar decisões e transformar acontecimentos em conhecimento. 

Há também uma dimensão sensível nesse exercício. 

Quando escreve, o educador encontra suas próprias inquietações. Reconhece aquilo que o afetou, aquilo que ainda não compreende, aquilo que precisa estudar. 

Escrever pode ser um modo de elaborar as emoções que acompanham o exercício de educar. De reconhecer o que nos mobiliza, o que nos desafia e aquilo que desejamos transformar. 

Talvez precisemos recuperar essa compreensão da escrita como um exercício de formação, e não apenas como uma exigência burocrática da profissão. 

Porque um educador que escreve sobre sua prática não está simplesmente descrevendo o que fez.

Está construindo uma consciência sobre o que faz, por que faz e sobre as consequências de suas escolhas. 

A escrita pode transformar uma experiência vivida em uma experiência refletida. 

E essa transformação é essencial para que o cotidiano da escola não se reduza à repetição de procedimentos.

O que a pressa está fazendo com nossas memórias?

Vivemos um tempo em que quase tudo parece exigir respostas imediatas. 

As mensagens chegam e esperam ser respondidas. As imagens são produzidas e compartilhadas em segundos. Os acontecimentos se sucedem antes mesmo que tenhamos conseguido compreender os anteriores. 

Também a escola está atravessada por essa aceleração. 

São tantos comunicados, planejamentos, mensagens, relatórios, fotografias e plataformas que, paradoxalmente, podemos registrar cada vez mais e refletir cada vez menos. 

Não se trata de negar as tecnologias digitais ou de idealizar um passado em que as cartas escritas à mão eram a principal forma de comunicação. 

O problema não está no suporte, mas na relação que construímos com o tempo, com a palavra e com a experiência. 

Uma carta também pode ser digital. Um registro manuscrito pode ser feito de maneira mecânica. O que importa é a qualidade da atenção que dedicamos ao pensamento e ao outro.

Ainda assim, existe algo na artesania da escrita manual que merece ser preservado. 

A textura do papel, o movimento da mão, a pausa antes de continuar uma frase, o intervalo entre escrever e receber uma resposta. 

A carta nos recorda que nem toda comunicação precisa ser instantânea. Que existem pensamentos que amadurecem na espera. Que algumas palavras precisam de tempo para encontrar seu destino. 

E me pergunto: que espaços temos criado para que os educadores possam pensar sem a obrigação de responder imediatamente? 

Que oportunidades oferecemos para que escrevam não apenas sobre as crianças, mas sobre suas próprias experiências, descobertas e inquietações? 

Em uma época marcada pela abundância de informações, talvez uma das maiores urgências da formação docente seja recuperar o tempo de produzir sentido.

Cartas aos educadores: uma formação que começa pela palavra

Foi dessa inquietação, despertada pela leitura de A Correspondente, que nasceu em mim o desejo de escrever cartas aos educadores. 

Cartas que possam chegar ao longo de um ano, convidando à leitura, à pausa, à reflexão e ao encontro com questões que atravessam a vida contemporânea e o cotidiano das escolas. 

Não como um conjunto de receitas pedagógicas. 

Nem como instruções sobre o que fazer na próxima segunda-feira. 

Mas como correspondências que provoquem perguntas, ampliem repertórios, aproximem arte, filosofia e pedagogia e convidem os educadores a revisitar suas próprias experiências. 

Quero escrever sobre as infâncias e suas linguagens. Sobre os gestos pequenos que revelam grandes investigações. Sobre a estética dos espaços, as materialidades, a observação, os vínculos, as escolhas e os acontecimentos que frequentemente escapam aos planejamentos. 

Mas quero também escrever sobre aquilo que atravessa a escola para além de seus muros. 

O tempo, a memória, a democracia, a cultura, a natureza, a presença, a sensibilidade e as transformações da sociedade contemporânea. 

Porque nenhuma escolha pedagógica acontece fora do mundo. 

A maneira como organizamos um espaço, selecionamos um material, escutamos uma criança ou interpretamos uma experiência carrega uma concepção de infância, de conhecimento e de sociedade. 

É nesse encontro entre ética, estética e política que reconheço a potência da cultura do ateliê. 

Uma cultura que não se define pela existência de uma sala específica ou pela quantidade de materiais disponíveis, mas pela disposição de observar, pesquisar, estabelecer relações e construir conhecimento a partir da vida que acontece. 

Quero que essas cartas sejam também um convite para que cada educador volte a escrever. 

Que encontrem seus cadernos, seus registros, suas palavras. 

Que possam escovar os acontecimentos do cotidiano, procurando vestígios de pensamentos ainda não reconhecidos.

Que escrevam sobre o que os surpreendeu, sobre o que não compreenderam, sobre aquilo que os fez mudar de ideia. 

Que possam construir não apenas a memória das crianças, mas também a memória de uma profissão que pensa, pesquisa, cria e participa da construção da sociedade. 

Talvez cada carta possa inaugurar uma conversa. E talvez cada conversa possa provocar uma nova maneira de olhar para aquilo que sempre esteve diante de nós.

Para que nossas histórias não passem despercebidas

 

 

Ao terminar A Correspondente, fiquei pensando nas histórias que sobrevivem porque alguém encontrou tempo para escrevê-las. 

Penso nas cartas guardadas em caixas, nos cadernos de professores, nos desenhos das crianças, nas fotografias acompanhadas de pequenas narrativas, nos registros que permitem reencontrar acontecimentos muitos anos depois. 

São fragmentos de vidas que, reunidos, constroem a memória de um tempo. E penso também naquilo que se perde quando deixamos de registrar. 

Não apenas os acontecimentos, mas as perguntas que eles provocaram. As transformações que produziram em nós. As escolhas que fizemos diante deles. 

Talvez escrever seja uma forma de resistir ao esquecimento. 

Talvez seja também uma maneira de cuidar daquilo que vivemos. 

A escola não precisa apenas produzir aprendizagens. Precisa construir memória sobre as experiências que tornam essas aprendizagens possíveis. 

E nós, educadores, precisamos reconhecer que também fazemos parte dessa história. 

Porque o futuro da educação não será construído apenas pelas grandes teorias, pelas políticas públicas ou pelas inovações tecnológicas. 

Ele também será construído pelas palavras daqueles que, todos os dias, observam, interrogam e reinventam o cotidiano das escolas. 

Escrever é deixar marcas. Documentar é reconhecer histórias. E educar é assumir a responsabilidade pelo mundo que ajudamos a tornar possível. 

Talvez seja por isso que eu tenha decidido voltar a escrever cartas. 

Para que possamos, juntos, continuar pensando a educação a partir do chão da escola que pisamos. 

E para que as histórias que vivemos — nossas e das crianças — não passem despercebidas


Referências

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas. São Paulo: Alfaguara, 2018.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 222–232. (Obras escolhidas, v. 1).

EVANS, Virginia. A correspondente. Tradução de Camila Fernandes Carmocini. Rio de Janeiro: Arqueiro, 2026.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. 25. ed. São Paulo: Cortez, 2017.

FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo: relatos de uma professora. 22. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2023.