, os fundamentos da cultura do ateliê e os aprendizados que transformaram meus últimos 25 anos de pesquisa sobre infância e pedagogia.
A primeira vez que ouvi falar de Reggio Emilia foi nos anos 90, quando comecei minha trajetória como professora de Educação Infantil. Naquela época, poucos livros haviam sido traduzidos para o português. Em uma dessas leituras, encontrei a história de uma pequena cidade italiana localizada na região da Emilia-Romagna, ao norte da Itália, próxima à Toscana. Ali, no pós-guerra, famílias inteiras decidiram reconstruir não apenas casas e ruas destruídas pela Segunda Guerra Mundial, mas também a esperança.
Conta-se que, a partir da venda de um tanque de guerra abandonado, mulheres e homens
da comunidade começaram a construir uma escola para as crianças.
Uma escola que pudesse impedir que o horror da guerra voltasse a se repetir.
Uma escola que formasse sujeitos livres.
Foi nesse contexto que surgiu o pensamento de Loris Malaguzzi, pedagogo e grande
articulador daquilo que hoje o mundo conhece como a Filosofia de Reggio Emilia.
Hoje, mais de 80 anos depois, a abordagem de Reggio Emilia segue inspirando educadores
do mundo inteiro.
A cidade possui uma rede municipal reconhecida internacionalmente,
composta por dezenas de creches e pré-escolas públicas, organizadas a partir de uma
pedagogia participativa que entende a criança como potente, competente e produtora de
cultura.
A abordagem ganhou notoriedade mundial especialmente após uma publicação do jornal
The New York Times reconhecer as escolas de Reggio Emilia entre as mais inovadoras do
mundo.
Mas talvez o mais bonito seja perceber que sua força não está na fama.
Está na humanidade.
Quando visitei Reggio Emilia pela primeira vez, durante meus estudos na pós-graduação,
tive a sensação de entrar em um lugar que eu já conhecia antes mesmo de chegar.
Ao desembarcar na estação de trem, algo me atravessou profundamente.
Desenhos de crianças ocupavam os espaços públicos.
As bicicletas, os parques, as praças, os pequenos detalhes da cidade pareciam anunciar
silenciosamente:
“a infância importa aqui.
”
Pela primeira vez, eu senti no corpo aquilo que os livros tentavam explicar.
A cidade era esteticamente habitável.
E talvez tenha sido ali que comecei a compreender um dos conceitos mais profundos da
filosofia de Reggio Emilia: o direito à beleza.
Em Reggio, a beleza não é decoração.
Ela é ética.
Ela é política.
Ela é uma forma de dizer às crianças:
“você merece habitar um mundo cuidadoso.”
As escolas revelavam isso em cada detalhe:
na luz,
na organização dos materiais,
nos vazios,
nas transparências,
nas plantas,
nas documentações espalhadas pelas paredes.
Tudo comunicava.
Tudo dizia:
a aprendizagem é um acontecimento vivo.
As cem linguagens das crianças
Um dos pensamentos mais conhecidos de Loris Malaguzzi é a ideia de que as crianças
possuem “cem linguagens”
.
.
Ou seja:
elas pensam através do desenho,
da argila,
do corpo,
da dança,
da luz,
da fala,
da música,
da construção,
do silêncio,
da imaginação.
Durante séculos, a escola privilegiou apenas algumas dessas linguagens.
Reggio Emilia propôs o contrário:
ampliar as possibilidades de expressão humana.
Por isso, a arte ocupa um lugar tão central nessa filosofia.
Não para formar artistas.
Mas para que ninguém se torne escravo de um único modo de pensar o mundo.
Foi também em Reggio Emilia que compreendi profundamente o papel do atelierista.
O atelierista não é um professor de artes.
Ele é alguém que amplia a capacidade de escuta da escola através das linguagens
artísticas.
Ele cria deslocamentos.
Provoca perguntas.
Ajuda crianças e adultos a construírem significado.
Com o tempo, fui entendendo que o ateliê não é apenas um espaço físico.
O ateliê é uma forma de relação com o conhecimento.
Um estado de presença.
Documentar para aprender a ver
Outro encontro decisivo da minha trajetória foi com a documentação pedagógica.
Em Reggio Emilia, documentar não significa apenas tirar fotos ou registrar atividades.
Documentar é pesquisar.
É tornar visível o pensamento das crianças.
É construir memória pedagógica.
Mas talvez o mais transformador seja perceber que a documentação também forma o
professor.
Ela funciona como espelho.
Ao revisitar processos, falas, hipóteses e encontros, começamos a perceber nossas
certezas, automatismos e modos de olhar.
Documentar nos obriga a desacelerar.
A negociar sentidos.
A ampliar o campo de visão.
E talvez seja justamente por isso que Paulo Freire seja tão reconhecido em Reggio Emilia.
Há muitos encontros entre Freire e Malaguzzi.
Ambos acreditavam em uma educação construída no diálogo, na escuta e na participação.
Ambos defendiam uma pedagogia comprometida com a liberdade.
Ao longo dos últimos 25 anos, tive o privilégio de retornar muitas vezes a Reggio Emilia,
estudar com professores, atelieristas e pesquisadores e aprofundar meu olhar sobre essa
filosofia.
Mas talvez o maior ensinamento que trouxe de lá tenha sido este:
Reggio Emilia não nos convida à cópia.
Ela nos convida à autoria.
Hoje, vejo muitos educadores atravessando o oceano em busca de materiais, imagens e
fórmulas prontas.
Mas o verdadeiro legado de Malaguzzi não está nas transparências, nos móveis ou nas
mesas de luz.
Está na coragem de olhar para o próprio território.
De reconhecer a potência da própria cultura.
Foi isso que aprendi ao voltar meu olhar para o sertão nordestino brasileiro.
Lugares muitas vezes vistos apenas pela lente da escassez revelam uma abundância
imensa de cultura, inventividade e vida.
A cultura do ateliê faz isso:
ela devolve cor à existência.
Ela transforma não apenas escolas.
Ela transforma modos de viver.
E talvez seja por isso que Reggio Emilia continue tão atual depois de tantas décadas.
Porque ela não oferece respostas prontas.
Ela nos ensina a acreditar que ainda é possível construir, juntos, uma educação mais
humana, sensível e democrática.Uma educação, como diria o mestre Paulo Freire, capaz de transformar pessoas… pessoastransformam o mundo.