Ser presença, hoje, é quase um ato de resistência.
É escolher estar inteiro em um mundo que nos quer apressados.
É sustentar o tempo do entre quando tudo insiste no imediato.
É confiar na criança quando tudo nos convida a antecipá-la.
É preparar o espaço… e, com coragem, dar um passo atrás —
para que a criança possa, então, dar o seu.
Mas é na simplicidade que mora a complexidade da vida. E é por isso que ser presença é tão desafiador.
Na contemporaneidade, vivemos um paradoxo delicado: ao mesmo tempo em que
afirmamos a criança como sujeito potente, ainda hesitamos em confiar verdadeiramente
nessa potência no cotidiano.
Oscilamos entre dois extremos:
● o adulto que faz pela criança, antecipando seus gestos e superprotegendo;
● e o adulto que se retira em excesso, confundindo autonomia com abandono.
Mas há um terceiro caminho — mais sutil e mais exigente — que se desenha entre esses
polos:
caminhar ao lado das crianças. Nem à frente. Nem atrás.
Foi nos estudos piklerianos que aprendi a ser presença. A abordagem de Emmi Pikler nos
convida a compreender que presença não é ação constante, nem ausência permissiva.
Presença é sustentação.
É estar ao lado com inteireza, garantindo:
● segurança física e emocional,
● tempos alargados,
● e ambientes que convoquem a ação autônoma.
Sem invadir.
Sem abandonar.
Ao compreender o conceito de movimento livre, percebemos que ele não é uma técnica —
é uma ética de confiança.
Quando um bebê pode explorar o próprio corpo sem ser colocado em posições que ainda
não conquistou, ele constrói algo aparentemente invisível aos olhos dos adultos, mas
estruturante na constituição psíquica do sujeito:
uma imagem de si como alguém capaz.
Essa imagem não nasce do elogio, mas da experiência vivida.
Cada tentativa, cada pausa, cada descoberta… é o corpo dizendo: “eu posso”.
E é nesse diálogo entre corpo e mundo que se funda a autonomia — não como
independência precoce, mas como capacidade construída na relação.
É justamente aqui que muitos equívocos acontecem: liberdade não é abandono.
Donald Winnicott nos ajuda a compreender esse paradoxo ao nos lembrar que existimos na
relação.
Sem presença, não há constituição.
E, como nos inspira Loris Malaguzzi, a escuta nos retira do anonimato — e nenhuma
criança suporta ser invisível.
Escutar é estar presente.
E estar presente começa por um gesto essencial: confiar na criança.
Adultos que acreditam: onde a autonomia ganha corpo
Há algo que atravessa tudo isso:
as crianças precisam de adultos que acreditem nelas.
Mas acreditar não é dizer.
É fazer.
Muitas vezes afirmamos confiar na competência das crianças, mas nossas ações revelam o
contrário:
● apressamos seus gestos,
● fazemos por elas,
● evitamos que experimentem,
● protegemos além do necessário.
E, sem perceber, dizemos com o corpo:
“eu não confio em você.”
A construção da autonomia e de uma boa imagem de si está diretamente relacionada às
experiências que oferecemos no cotidiano.
Estar ao lado das crianças é promover e acompanhar, lado a lado, seu desenvolvimento.
É oferecer suporte e segurança para que possam experimentar o mundo com verdade.
Na escola, isso se traduz em gestos simples e profundamente transformadores:
● convidar as crianças a colocar a mesa,
● permitir que ajudem a recolher a louça,
● envolvê-las nos momentos de cuidado e higiene como participantes ativos,
● sustentar presença nesses momentos, sem pressa, sem antecipação.
Essas ações dizem, silenciosamente:
● você é capaz
● eu confio em você
● você faz parte
Os espaços e materiais também educam
Na cultura do ateliê, aprendemos que os espaços e materiais falam.
Eles comunicam nossas crenças antes mesmo das palavras.
● Um copo de vidro ou de plástico?
● Panelinhas de metal ou brinquedos que apenas imitam?
● Ferramentas reais ou versões esvaziadas de experiência?
Cada escolha é um posicionamento.
Quando oferecemos materiais verdadeiros, dizemos:
“o mundo é seu para ser vivido.”
Quando evitamos tudo em nome da proteção, corremos o risco de dizer:
“o mundo não é para você.”
Proteger não é privar.
O excesso de proteção também limita — e comunica descrédito.
E as crianças, profundamente sensíveis, sabem.
Elas se engajam no que é vivo. No que faz sentido. No que é verdadeiro.
Vivemos em uma cultura que oferece demais — e escuta de menos.
Num mundo atravessado por uma velocidade de informação tão grande, onde tudo nos convida a consumir — imagens, estímulos, respostas — precisamos nos perguntar:
temos tempo para esperar?
Porque o encontro não acontece no excesso.
O encontro acontece no entre.
Entre um gesto e outro.
Entre o que a criança faz e o que ainda não fez.
Entre o silêncio e a palavra.
No capítulo que escrevi para o livro Cardume, compartilho:
“Quando o mundo não está pronto, a criança inventa.
E nesse gesto de invenção, ela não apenas brinca — ela se constitui.”
O “brincar com nada”, como nos provoca Antonio Di Pietro, não é ausência. É abertura.
“O nada, para a criança, não é vazio.
É território fértil.
É o intervalo onde a imaginação encontra lugar para existir.”
Mas o intervalo exige algo que estamos desaprendendo:
esperar.
Esperar não é perder tempo.
É criar tempo.
Para Donald Winnicott, o desenvolvimento emocional saudável nasce de um ambiente suficientemente bom.
Na abordagem pikleriana, isso se concretiza nos momentos de cuidado:
Esses momentos não são pausas.
São encontros.
E são eles que sustentam a criança para, depois, poder se afastar e explorar o mundo com confiança.
Observar é um ato de amor atento.
É sustentar o olhar com curiosidade genuína, reconhecendo que cada gesto da criança é uma narrativa em construção.
Na sutileza, ela revela quem é.
E é a partir dessa escuta que o adulto pode oferecer novas possibilidades.
Estar ao lado é também isso:
fazer uma curadoria das coisas da vida.
Vivemos atravessados por telas que aceleram o tempo e fragmentam a atenção. Elas nos colocam em muitos lugares — e nos retiram do encontro.
E o encontro, sabemos, acontece no entre:
na pausa,
no olhar,
na presença.
Não há como sustentar a presença fora
se não habitamos a nós mesmos por dentro.
Ser presença exige:
É um exercício contínuo de voltar para si —
para então poder estar, verdadeiramente, com o outro.
Cuidar e educar não se dissociam.
Dos 0 aos 3 anos, construímos a base que sustentará todo o caminhar de um sujeito. É nesse tempo que se formam:
E essa construção não acontece no discurso.
Ela acontece nos detalhes.
Nas escolhas.
Nos gestos cotidianos.
Porque, no fim, vale lembrar:
o cotidiano que oferecemos às crianças revela o nosso projeto de sociedade.
E quanto mais simples ele for,
mais complexidade de pensamento e aprendizagem poderá nascer.
Como começar?
Fazendo escolhas.
Que tal revisitar o seu planejamento
e se perguntar, com honestidade:
o que realmente importa?