Ser presença: um verbo para o nosso tempo

Parece simples, não é mesmo?

Ser presença, hoje, é quase um ato de resistência.

É escolher estar inteiro em um mundo que nos quer apressados.
É sustentar o tempo do entre quando tudo insiste no imediato.
É confiar na criança quando tudo nos convida a antecipá-la.
É preparar o espaço… e, com coragem, dar um passo atrás — para que a criança possa, então, dar o seu.

Parece simples, não é mesmo?

Mas é na simplicidade que mora a complexidade da vida. E é por isso que ser presença é tão desafiador.

Entre o controle e o abandono: o paradoxo contemporâneo

Na contemporaneidade, vivemos um paradoxo delicado: ao mesmo tempo em que afirmamos a criança como sujeito potente, ainda hesitamos em confiar verdadeiramente nessa potência no cotidiano.

Oscilamos entre dois extremos:
● o adulto que faz pela criança, antecipando seus gestos e superprotegendo;
● e o adulto que se retira em excesso, confundindo autonomia com abandono.

Mas há um terceiro caminho — mais sutil e mais exigente — que se desenha entre esses polos:
caminhar ao lado das crianças. Nem à frente. Nem atrás.

Foi nos estudos piklerianos que aprendi a ser presença. A abordagem de Emmi Pikler nos convida a compreender que presença não é ação constante, nem ausência permissiva.

Presença é sustentação.

É estar ao lado com inteireza, garantindo:
● segurança física e emocional,
● tempos alargados,
● e ambientes que convoquem a ação autônoma. Sem invadir.

Sem abandonar.

Movimento livre: quando o corpo constrói pensamento

Ao compreender o conceito de movimento livre, percebemos que ele não é uma técnica — é uma ética de confiança.

Quando um bebê pode explorar o próprio corpo sem ser colocado em posições que ainda não conquistou, ele constrói algo aparentemente invisível aos olhos dos adultos, mas estruturante na constituição psíquica do sujeito: uma imagem de si como alguém capaz.

Essa imagem não nasce do elogio, mas da experiência vivida.
Cada tentativa, cada pausa, cada descoberta… é o corpo dizendo: “eu posso”.

E é nesse diálogo entre corpo e mundo que se funda a autonomia — não como independência precoce, mas como capacidade construída na relação.

É justamente aqui que muitos equívocos acontecem: liberdade não é abandono.

Donald Winnicott nos ajuda a compreender esse paradoxo ao nos lembrar que existimos na relação.
Sem presença, não há constituição.

E, como nos inspira Loris Malaguzzi, a escuta nos retira do anonimato — e nenhuma criança suporta ser invisível.

Escutar é estar presente.
E estar presente começa por um gesto essencial: confiar na criança.

Adultos que acreditam: onde a autonomia ganha corpo

Há algo que atravessa tudo isso:
as crianças precisam de adultos que acreditem nelas. Mas acreditar não é dizer.
É fazer.

Muitas vezes afirmamos confiar na competência das crianças, mas nossas ações revelam o contrário:
● apressamos seus gestos,
● fazemos por elas,
● evitamos que experimentem,
● protegemos além do necessário.

E, sem perceber, dizemos com o corpo:
“eu não confio em você.”

A construção da autonomia e de uma boa imagem de si está diretamente relacionada às experiências que oferecemos no cotidiano.

Estar ao lado das crianças é promover e acompanhar, lado a lado, seu desenvolvimento.
É oferecer suporte e segurança para que possam experimentar o mundo com verdade.

Na escola, isso se traduz em gestos simples e profundamente transformadores:

● convidar as crianças a colocar a mesa,
● permitir que ajudem a recolher a louça,
● envolvê-las nos momentos de cuidado e higiene como participantes ativos,
● sustentar presença nesses momentos, sem pressa, sem antecipação.

Essas ações dizem, silenciosamente:
● você é capaz
● eu confio em você
● você faz parte

Os espaços e materiais também educam

Na cultura do ateliê, aprendemos que os espaços e materiais falam.

Eles comunicam nossas crenças antes mesmo das palavras.

● Um copo de vidro ou de plástico?
● Panelinhas de metal ou brinquedos que apenas imitam?
● Ferramentas reais ou versões esvaziadas de experiência?

Cada escolha é um posicionamento.

Quando oferecemos materiais verdadeiros, dizemos:
“o mundo é seu para ser vivido.”

Quando evitamos tudo em nome da proteção, corremos o risco de dizer:
“o mundo não é para você.”

Proteger não é privar.

O excesso de proteção também limita — e comunica descrédito.

E as crianças, profundamente sensíveis, sabem.

Elas se engajam no que é vivo. No que faz sentido. No que é verdadeiro.

O brincar com nada: onde o encontro acontece

Vivemos em uma cultura que oferece demais — e escuta de menos. 

Num mundo atravessado por uma velocidade de informação tão grande, onde tudo nos convida a consumir — imagens, estímulos, respostas — precisamos nos perguntar: 

temos tempo para esperar? 

Porque o encontro não acontece no excesso. 

O encontro acontece no entre. 

Entre um gesto e outro. 

Entre o que a criança faz e o que ainda não fez. 

Entre o silêncio e a palavra. 

No capítulo que escrevi para o livro Cardume, compartilho: 

“Quando o mundo não está pronto, a criança inventa. 

E nesse gesto de invenção, ela não apenas brinca — ela se constitui.” 

O “brincar com nada”, como nos provoca Antonio Di Pietro, não é ausência. É abertura. 

“O nada, para a criança, não é vazio. 

É território fértil. 

É o intervalo onde a imaginação encontra lugar para existir.” 

Mas o intervalo exige algo que estamos desaprendendo: 

esperar

Esperar não é perder tempo. 

É criar tempo. 

 

Cuidado como encontro 

Para Donald Winnicott, o desenvolvimento emocional saudável nasce de um ambiente suficientemente bom. 

Na abordagem pikleriana, isso se concretiza nos momentos de cuidado: 

  • a troca, 
  • o banho, 
  • a alimentação, 
  • o sono.

Esses momentos não são pausas. 

São encontros. 

E são eles que sustentam a criança para, depois, poder se afastar e explorar o mundo com confiança. 

 

Observar: um gesto ativo de escuta 

Observar é um ato de amor atento. 

É sustentar o olhar com curiosidade genuína, reconhecendo que cada gesto da criança é uma narrativa em construção. 

Na sutileza, ela revela quem é. 

E é a partir dessa escuta que o adulto pode oferecer novas possibilidades. 

Estar ao lado é também isso: 

fazer uma curadoria das coisas da vida. 

 

As telas e a perda do encontro 

Vivemos atravessados por telas que aceleram o tempo e fragmentam a atenção. Elas nos colocam em muitos lugares — e nos retiram do encontro. 

E o encontro, sabemos, acontece no entre: 

na pausa, 

no olhar, 

na presença. 

 

A formação do adulto: um caminho para dentro 

Não há como sustentar a presença fora 

se não habitamos a nós mesmos por dentro. 

Ser presença exige: 

  • escuta interna, 
  • consciência dos atravessamentos, 
  • disponibilidade emocional.

É um exercício contínuo de voltar para si — 

para então poder estar, verdadeiramente, com o outro. 

 

Primeiríssima infância: onde tudo começa

 

Cuidar e educar não se dissociam. 

Dos 0 aos 3 anos, construímos a base que sustentará todo o caminhar de um sujeito. É nesse tempo que se formam: 

  • a confiança em si, 
  • o desejo de explorar, 
  • a resiliência, 
  • a capacidade de imaginar, 
  • a segurança para existir com autoria, 
  • a disponibilidade para o encontro. 

E essa construção não acontece no discurso. 

Ela acontece nos detalhes. 

Nas escolhas. 

Nos gestos cotidianos. 

Porque, no fim, vale lembrar: 

o cotidiano que oferecemos às crianças revela o nosso projeto de sociedade. 

E quanto mais simples ele for, 

mais complexidade de pensamento e aprendizagem poderá nascer. 

Como começar?

Fazendo escolhas.
Que tal revisitar o seu planejamento e se perguntar, com honestidade: o que realmente importa?